Monday, September 12, 2011

Microfilmes autobiográficos 10.º 4.ª

Rodrigo



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Rodrigo (17,3) Texto/Estrutura Salientaria antes de tudo a capacidade de organizar uma narrativa para cinema. O texto — liminar, incisivo —, os «takes» — em espaços variados, decisivos sempre — e a justaposição de tudo — com as elipses necessárias a tornar o enredo veloz — concorrem para conferir ao filme um ritmo de história cinematográfico. Tenho dúvidas sobre a frase que abre o microfilme («Era uma vez a história de um rapaz»); não sou muito entendido em literatura tradicional, mas adivinho que esta estrutura não seja comum (seria: «Era uma vez um rapaz»; a não ser que o objetivo fosse mesmo contar a história de uma história). Expressão oral Até certo ponto, o estilo sintético das falas e da narração dificulta uma justa aferição da expressão oral de Rodrigo (seja a da representação seja a da leitura). Ainda por cima, esse raro discurso oral também não põe grandes dificuldades, já que se organiza em frases curtas. Mesmo assim, ainda que não tenha encontrado incorreções gritantes, pareceu-me demasiado lenta a abordagem de umas duas ou três frases (por exemplo, não se justifica a pausa entre «deseja» e «chegou», cerca dos 55 segundos), mas percebo que essa lentidão visa dramatizar a narração (ou fingir a própria escrita na folha?).

Inês Marques



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Inês Marques (16,5) Texto/Estrutura O filme é mais um produto da prolífica Produtora que, além da autora, Inês M., inclui ainda Inês Costa, Pedro R. (3.ª) e Rodrigo (4.ª). Desta vez, não é propriamente uma narrativa firmada nas imagens (cfr. os microfilmes de Pedro R. e de Rodrigo); o filme em fundo é bastante independente, mais ilustrativo, mais supletivo, do que relevante para a «história» (exceptue-se o «Querido Diário» inicial, que se incorpora no enredo); reconheça-se, no entanto, que a música e a alegria geral que se percebe nas imagens beneficiam o microfilme, num crescendo até «vou dormir e pensar no assunto» (um tanto incoerente com a euforia, salvo erro, shaquirense). Texto é seguro, mas poderia estar mais elaborado, requintado («o que me carrega um grande peso nos ombros» deveria ficar «o que faz peso sobre os meus ombros», «o que é um peso que carrego sobre os ombros»; «deste ano para o ano passado» seria «do ano passado para este ano» ou «entre este e o ano passado»). Talvez esperasse maior extensão (1.13 apenas). Expressão oral Bastante boa a leitura de Inês. Notei ligeiro tropeção em «padrinhos»; «moldar ao seu gosto» ficou quase «moldar o seu gosto». Talvez fizesse «pontos finais» um pouco maiores.



Inês Miranda



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Inês Miranda (17,3) Texto/Estrutura Texto tem certa complexidade (mais de pontuação e articulação de frases do que de léxico ou de «enredo»), o que constitui até dificuldade suplementar para a leitura (os advérbios, compridos, em ‘–mente’; os condicionais; o estilo pergunta-resposta). É um bom texto, a que eu tiraria talvez um ou dois lugares comuns («[viver] um dia de cada vez», «lágrimas», desespero»). Bom final: «correr livremente» a coincidir com corrida (creio que é o blogger que atrasa a imagem da corrida relativamente ao som). Expressão oral Inês procurou fazer leitura expressiva, o que eleva o grau de dificuldade (e já expliquei que o texto já não era fácil). Esse risco valeu a pena, sobretudo a partir de pouco depois do início, em que a leitura, por momentos, pareceu pouco espontânea. Só notei estas ligeiras falhas: «interliguei» pouco definido; um «muito provavelmente» com plausa exagerada; um «mas a realidade / é que agora é diferente» com pausa talvez excessiva, dependendo porém da exata interpretação do passo.


Miguel D.



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Miguel D. (15,3) Texto/Estrutura Texto, em forma de carta às «caras pessoas», está bem escrito; e imagens — mesmo se nem sempre são muito legíveis — articulam-se bem com ele (é provável até que a redação tenha sido elaborada já em função das imagens). Expressão oral Leitura em voz alta está a um nível inferior ao do texto. Não é a entoação, ou o sentido da expressividade, que me parecem aceitáveis. Quase sempre, o problema é a velocidade a que o Miguel pretende ler, mas também a pronúncia um tanto desleixada (de lisboeta comedor de sílabas). Admito ainda que não tivesse havido suficientes ensaios na preparação da leitura em voz alta.


Marta



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Marta (17,6) Texto/Estrutura Não sei como foi engendrado o filme (acelerado) que serve de fundo, mas interage perfeitamente com o sentido do texto dito (transmite a ideia do crescimento, do decurso de uma vida, em apenas três minutos); também a música contribui para que este microfilme seja um produto muito bem acabado. Quanto ao texto, é muito bom. O cariz memorialístico acolhe bem as referências a sítios, hábitos, pequenas recordações, e todas essas alusões concretas permitem à Marta fugir aos lugares comuns em que podem cair os textos introspetivos. Ligeira emenda a fazer: «tenha receio que» deve ficar «tenha receio de que». Expressão oral É uma boa (ou muito boa) leitura, com talvez, aqui e ali, zonas em que a expressividade parece apagar-se um pouco. Porém, quase nada notei de falhas assinaláveis: um ligeiro ganhar de fôlego antes de «Cresci» (a meio) e outro já perto do final.


Daniel



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Daniel (16,7) Texto/Estrutura É uma página de diário bastante bem escrita. A parte inicial do filme contextualiza: é depois da chegada a casa, vindo de almoço familiar em Leiria. Neste ponto, enuunciação e enunciado coincidem, já que o filme mostra Daniel a começar a escrever e vemos a página em causa. Dá-se então uma analepse, para vermos/ouvirmos acerca do dia anterior, desde a saída de casa nessa manhã. Até regressarmos à mesa de trabalho, retomando-se a coincidência entre tempo da enunciação e do enunciado. Apesar da abordagem diarística, há, no final, alusões mais abrangentes, que justificam o título «memórias de adolescente». Expressão oral Boa leitura, mesmo sem se ter arriscado estilo mais representado, mais expressivo, que também era possível. Entre «períodos», eu faria pausas maiores, que sobretudo permitiriam apagar a sensação de quase velocidade em excesso (que vem de não haver mais respiração).



Catarina N.



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Catarina N. (17,3) Texto/Estrutura É um muito bom texto, de redação sofisticada, complexa. A situação narrativa criada (carta a um «caro desconhecido», acomodada em garrafa a ser lançada) é enquadrada por imagens que permitem perceber o lançamento da mensagem, pela autora, e, no final, a sua recolha, por alguém que vemos fugidiamente. Entretanto, enquanto ouvimos a carta, temos a remetente e a praia (reparo meu escusadamente denotativo: caso se queira mesmo fazer chegar uma garrafa ao outro lado do oceano, convém evitar escolher um local tão cercado de rochas). Expressão oral É boa a leitura em voz alta da Catarina (e ainda mais porque o texto é difícil), embora incorra, duas ou três vezes, em excessiva fidelidade à pontuação escrita (sucede isso em «que, por vezes,»; num «e» seguido de vírgula, que, salvo erro nem teria de haver mesmo na escrita; em «o vento[,] bate-me no rosto»). Uma emenda ainda à pronúncia de «perseverança»: o «s», pós «r», deve ser dito como [s] e não como [z] — «per[s]everança».


Alexandre C.



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Alexandre C. (16,6) Texto/Estrutura É relato de um dia (não propriamente a página de um diário) mas a cronologia mesmo de um dia típico do autor (começado às 7 — o final, «que começa cedo, como já sabem», alude ao despertador com que o filme começara, dando assim ideia de se ter chegado ao fim do ciclo, retomando-se a rotina diária). A narrativa deste dia típico vai ser pontuada de circunstâncias, gostos, fora já do estrito horário que o filme anunciara, o que permite que o filme seja de ‘narrativa de um dia’ e de ‘memórias de infância’. Além das imagens mais denotativas, localizadas nas imediações da escola, e relativas ao ‘relato diário’, vão surgindo também as mais subjetivas, ligadas à infância do autor e à família, e que remetem para a parte ‘memórias’. O texto está bem escrito. Expressão oral A leitura em voz alta não é tão boa como o texto. O Alexandre leu quase sempre com bastante segurança, com certa lentidão, o que favorece a nossa compreensão mas torna a locução pouco viva. E há dois ou três casos de vírgulas demasiado marcadas: «e, por isso, tento fazer», «pois, como já sabem, amanhã»; em «Este / é um desafio constante» há uma pausa excessiva depois de «este».



Catarina B.



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Catarina B. (16) Texto/Estrutura São umas memórias/retrato mas polarizados por animais, o primeiro foco de interesse da autora (no final, sabe-se, entretanto já esbatido, embora permaneça, agora ao lado da culinária). A Catarina tem realmente sensibilidade artística como se vê até de lettering e do sentido estético que resulta da sucessão das imagens (e da qualidade destas). A frase final não tem boa sintaxe: «tenho questionado do que realmente quero ser» (melhor: «tenho-me questionado sobre o que realmente quero ser»); «tenho descobrido» é melhor do que «tenho descoberto» (sim, eu sei, parece estranho: mas com o verbo «ter» é a forma regular do particípio passado que se deve usar). Expressão oral Leitura boa, em que a autora adopta tom neutro, calmo. Essa quase inexpressividade acaba por jogar bem com as imagens, dar ao texto um matiz melancólico. A velocidade escassa evita também tropeções. É estratégia de pouco risco, mas acertada. Alguns problemas de pronúncia, que se notam numa gravação, apesar de serem correntes na fala de todos nós: «turques» (por «truques»); «grande» pareceu-me quase «gande» (mas estou a exagerar).


David



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David (15,5) Texto/Estrutura É um texto de autorretrato e, aqui ali, de memórias circunscritas a anos recentes — é o caso da parte final, que poderia parecer contrariar a abordagem até aí mas que, quanto a mim, permite um fecho interessante, de índole mais introspetiva do que descritiva. Querer fazer esta espécie de ponto de situação num estilo coloquial leva o David a recorrer bastante a fórmulas (‘gosto de’; ‘sou assim ou assado’; ‘costumo fazer isto ou aquilo’) que não são muito complexas. Há nisso bastante eficiência informativa, mas fica também uma certa simplicidade na construçãodo texto. Não há erros na escrita — que tem o mérito de ser franca, sincera, embora não deixe de recorrer a alguns lugares comuns destes textos (pouco amigos mas bons; rotina casa-escola; recuperar energia nas férias; surf e sensação de liberdade). Parece-me ouvir «vou colecionando-os», que é pior do que «vou-os colecionando». A solução de ilustrar o texto com imagens diretas (fim de semana/Garfield; etc.) tem vantagens e desvantagens. Expressão oral Momentos de coloquialidade propostos no texto escrito constituíram uma dificuldade que nem sempre foi vencida completamente (um «ok, também não sei [...]», logo no início, merecia ser mais expressivo; um «a brincar, a brincar, [...]» podia soar mais ligeiro; um «férias são férias» talvez devesse ser mais confiante). Cerca dos três minutos, creio detetar um ligeiro tropeção («com confiança»?, «como confiante»?); e o mesmo sucede, perto do minuto e quarenta e cinco, em «quando se proporciona». De resto, a leitura é eficiente, sem falhar entoações, num ritmo adequado mas sem muito arriscar.



Filipa



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Filipa (16) Texto/Estrutura Funciona bem o início do filme: para dar a ideia de rotina, surgem fotogramas justapostos rapidamente, de imagens que serão apresentadas mais à frente, quando se tratar de mostrar o dia passo a passo. Este assunto — resumir um dia — tem o risco de o texto se poder tornar muito exclusivamente cronológico (levanto-me, vou para a escola, venho da escola, faço os tepecês, ...), obrigando a uma sintaxe que acaba por ser económica. Haveria talvez que, dentro da normalidadade da rotina, pôr algumas observações irónicas, por exemplo; ou, ao conrário, acentuar a banalidade da rotina diária através de algum artifício como o que gabei no início, ou algum efeito em termos textuais. O filme vê-se bem, é leve e bem acabado, talvez até demasiado linear. Expressão oral É uma leitura calma, em ritmo certo, com entoações corretas, de um texto que — a verdade seja dita — não punha dificuldades. Só notei estes pontos melhoráveis: o início de «Apetecia-me antes aprender [...]» ficou um tanto comido, dada a pronúncia apressada; inversamente, «opinião» foi dito com is demasiado nítidos (deveria ser mais «op[e]nião» do que «opinião», como é mais «F[e]lipa» do que «F[i]lipa» — as letras não são para seguir tão à letra).


Mar



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Mar (15,2-15,3) Texto/Estrutura É um texto bem escrito, sensível, ainda que, aqui e ali, haja os lugares comuns do género autobiográfico adolescente (‘amigos em que posso confiar’, ‘senhora do meu nariz’, etc.). Foi boa a opção de ir acompanhando este retrato/autobiografia com imagens da autora, família, amigos, muitas vezes sem grande preocupação de as fazer corresponder diretamente ao que está a ser lido. Em «uma carreira de que goste» faltou o «de». Expressão oral Referirei dois aspetos melhoráveis e que até podem parecer contraditórios. Há excesso de velocidade no ataque das frases (fazendo que as sílabas se mesclem um tanto e o ouvinte tenha de estar atento; é uma questão de leitura mas também do próprio registo juvenil/lisboeta, que come sílabas) e há paragem demorada em algumas vírgulas (é o que tenho repetido: certa pontuação obrigatória na escrita não tem de significar correspondente pausa na oralidade). Houve ainda umas hesitações (que a velocidade de Mar implicaria sempre): cerca de 0,56 («contam-se pelos dedos das mãos»); 1,23 («sem qualquer vergonha, que»); 2,07 («pode [posso?] parecer»)



Mariana



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Mariana (15) Texto/Estrutura É uma autobiografia centrada sobretudo no percurso escolar (este «um pouco de mim» é, no fundo, a Mariana enquanto estudante). Houve a preocupação de ir documentando todos os passos com imagens, o que torna o filme fácil de seguir (dir-se-ia que as imagens até conduzem o texto e, como veremos, parece até que a locução tem pressa para não falhar o que esteja a ser visto). Também o texto é agradável, generoso com os outros, embora pudesse estar mais trabalhado. Aspetos de linguagem melhoráveis: «Conheci meninos fantásticos que ainda hoje os vejo» (seria: «Conheci meninos fantásticos que ainda hoje vejo» («que» já é o pronome correspondente ao antecedente «meninos»; e, já agora, em vez de «meninos», ficava melhor «outras crianças»; quanto a «fantásticos», surge como qualificativo em outro passo do filme); num texto com este grau de formalidade, é de evitar fechar séries, que nem são longas, com um «etc.» (quantos mais concretos formos, melhor); ao terminar de falar nos tempos da Pedro, a autora refere-se a «esta» escola («pronome»), mas, logo a seguir, surge um «nesta escola» relativo à ESJGF («esta» é agora deítico espacial, porque a Mariana está a enunciar a partir da ESJGF) — enfim, com mais cuidado escapava-se a estes dois «estas» que afinal são diferentes. Expressão oral Em certos momentos, Mariana leu com demasiada pressa, o que faz que alguns palavras quase se misturem (um desses passos é «pessoas magníficas que vou guardar [...]»). Por vezes, era conveniente ter respirado, «fazer um ponto final» (por exemplo: em «[...] Oficina da criança, onde fiz grandes amigos, e alguns deles estão nesta escola», faríamos uma pausa em «amigos» e, só depois, numa explicação parentética, acrescentávamos «alguns deles estão nesta escola»). Creio que é «embates» (ou «impactos»?) [1.04]: de novo, a velocidade a tornar difícil perceber bem o texto.


Rafaela



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Rafaela (16,6-16,7) Texto/Estrutura Microfilme foi feito com cuidado, com gosto, com capacidade técnica: enquanto a Rafaela vai passeando por Lisboa, a sua cidade desde há cinco anos, vão surgindo, em slides, momentos das fases mais importantes da sua biografia (e ocorre-me agora: e se, em vez do percurso pela Baixa, se revisitassem os lugares em Benfica — Fernão Mendes Pinto, Delfim Santos, ESJGF —, onde o essencial desta história se passou?). Texto está bem escrito, embora sempre muito colado à própria cronologia, o que faz que predomine a coordenação, a justaposição de acontecimentos (estive aqui, fui para ali, depois para acolá), o que dificulta uma abordagem mais densa, mais complexa (é claro que não é culpa da autora, é quase uma implicação do género ‘auto-biografia em três minutos’). Não há incorreções linguísticas. Só notei este lapso: «fazer amizades que esperem que fiquem para a vida» («fazer amizades que espero que fiquem para a vida»). Expressão oral A leitura da Rafaela é boa. O ritmo é apropriado e quase não há «tropeções». Apenas registei «pel[a] que sou a coisa mais importante da vida deles» (seria: «pelo que sou a coisa mais importante da vida deles») e umas hesitações cerca de «durante a festa» [1.48-50] e em «Escola Secundária José Gomes Ferreira» [2.00]



Rita



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Rita (17,2) Texto/Estrutura O dispositivo é simples: a autora na areia, enquanto vai falando, em off, do embevecimento pelos tempos que já passaram; na areia se construem castelos ou se fazem inscrições (do diagrama do jogo da macaca, de palavras que servem de síntese), papel depois desempenhado também por balões ou por papéis, ou se veem álbuns de recordações. O texto não é uma autobiografia, com indicação dos acontecimentos vividos, mas uma reflexão sobre a passagem do tempo — aludindo-se então a emblemas de memórias de infância (lá está o jogo da macaca, mas não os nenucos, nem, esperavelmente, caricas, piões, fisgas). Diga-se que esta exposição sobre a saudade, com o lugar comum de que os melhores tempos já passaram (aos quinze anos!), soa sempre um pouco irrisória, risível, para quem já tenha vivido um pouco mais. O que é certo é que está bem escrita. Correção linguística: em vez de «perfeita noção que os melhores anos da minha vida já passaram», seria «perfeita noção de que os melhores anos da minha vida já passaram»; «apercebo-me que o tempo passa a correr» («apercebo-me de que o tempo passa a correr»); «com os limites que recebemos» («com os limites que nos impõem/estipulam/traçam». Algumas frases feitas: «conquistar tudo e todos»; «um sorriso de criança»; «ter uma criança dentro de mim»; «vida atribulada dos adultos». Expressão oral Muito boa a leitura da Rita.



Maria Inês



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Maria Inês (17,5-17,6) Texto/Estrutura Além de o texto estar bem escrito, a autora teve a noção exata de como num filme as diversas artes (relativas às imagens, à música, à escrita) têm de se conjugar. Com efeito, um dos seus grandes méritos é ter sabido aproveitar os vários media, coordenadamente, sem que sintamos estar perante áreas independentes ou trabalhadas em fases diferentes. O resultado aproxima-se já do produto concebido de raiz para televisão/vídeo, não é meramente um bom texto bem ilustrado ou um bom filme bem comentado. O que se vê assim como produto simples, espontâneo, inspirado, há de ter dado muito trabalho e decerto exigiu planificação inteligente. Correção: «Com que sei que posso contar sempre que precisarei» (teria de ser o futuro do conjuntivo: «sempre que precisar»). Expressão oral Optou-se por uma leitura dramatizada, que vai bem com o ritmo rápido do microfilme e que implica maiores dificuldades (embora também sirva para estilizar algumas entoações difíceis). Essa maior exigência foi perfeitamente correspondida pela leitura em voz alta da Maria Inês. Pronúncia mais comum de «inofensivo» é «in[u]fensivo» (mas aceito «in[o]fensivo»); ligeira pausa indevida em «são talvez / reflexos».



Núria



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Núria (16,4) Texto/Estrutura Abordou-se o género autorretrato pelo foco de um único assunto, o teatro. O texto assim criado, que reúne fragmentos do tipo expositivo, do tipo argumentativo, mas tem também momentos introspetivos, consegue ter uma sofisticação que seria mais difícil obter em textos de cariz autobiográfico habituais. Está bem escrito e vai sendo acompanhado por imagens ora meramente ilustrativas, numa primeira fase, mas também por algumas fotografias do arquivo pessoal da autora, à medida que nos aproximamos do final e o tema «teatro» se vai cada vez mais cruzando e misturando com o retrato de Núria. Expressão oral O estilo de leitura em voz alta escolhido foi o da declamação (afinal, conveniente ao teatro). Neste registo, de expressividade mais do que naturalidade, de voz projetada e absolutamente audível, esteve a Núria quase sempre muito bem (houve apenas uns ligeiros entarelamentos em: «pensar em mim» [0.20]; «de verdadeiros» [0.39]; «são os atores» [1.05], «nervosismo» [2.05]).



Gonçalo C.



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Gonçalo C. (14,4) Texto/Estrutura O microfilme assenta sobre uma bela ideia: aproveitar imagens do seu dia de batizado para fazer um texto autobiográfico na voz de um narrador homodiegético improvável. A vantagem era que um narrador-bebé podia testemunhar os acontecimentos de forma engraçada, o que o texto de Gonçalo realmente consegue mas apenas parcialmente. Poder-se-ia ter ido mais longe nessa brincadeira a propósito do olhar de quem não pode perceber o contexto (e até conseguir aí uma diferente aproximação ao género autobiografia) . Houve logo desperdício do tempo, já que boa parte das imagens não foram preenchidas com o monólogo. Notei esta incorreção de redação: «onde molharam-me a cabeça» (teria de ser «onde me molharam a cabeça» — a oração subordinada obriga a que o pronome se antecipe ao verbo). Expressão oral A leitura em voz alta de Gonçalo foi apenas aceitável. Um texto que nem era longo merecia ter sido objeto de mais ensaios de leitura. A ideia com que fico é que terá sido treinado poucas vezes.



Sara



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Sara (16,9) Texto/Estrutura «Vida jovem» termina com citação de Chaplin (que compara a vida com o teatro) mas começa por aludir até mais ao cinema e à nostalgia da infância (a música é a de Cinema Paraíso). Seja por aí seja pelo texto — que, com efeito, regressa ao leitmotiv ‘até agora foram os bons anos, mas vêm aí as responsabilidades’ —, o tom é de melancolia, de saudade já. É um texto ilustrado com gosto, muito bem escrito, embora, em raros momentos, quase se chegue a abeirar do lugar comum, da ideia feita (‘devemos viver como se cada dia fosse o último’). Expressão oral Também a leitura em voz alta de Sara é bastante boa. Notei-lhe só estas fragilidades: pausa indevida em «visto que / a maior parte das pessoas apenas existe»; pausa exagerada (guiada pela pontuação gráfica) em: «e, por isso, devemos vivê-la [...]» e em «é certo que, com apenas quinze anos de vida, ainda [...]». Em «expectativas» (ou «expetativas»), o «c» não costuma ser lido, embora «expe[k]tativa» não seja demasiado estranhável.


Joana



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Joana (16,4) Texto/Estrutura Texto bem escrito. Joana começa por vincar a dificuldade de sermos introspetivos, mas, nos minutos seguintes, consegue falar de si de modo original, fugindo a lugares comuns (enfim, cai também num ou noutro: «não abdicar de princípios», «atingir objetivos», é linguagem de políticos, padres, gestores, mas não é uma grande linguagem). A conceção do microfilme revela, digamos, boa intuição técnica (música, ritmo das imagens). Notei os seguintes problemas linguísticos. No título (ou legenda inicial) «Onde estou, quem sou?», o ponto de interrogação devia ficar encostado à última letra (todos os sinais de pontuação — salvo o travessão — devem colar-se à palavra anterior, sem espaço. No slide seguinte, «Coelho» devia ficar com maiúscula inicial (sim, estou a ser picuinhas — e, mesmo assim, não assinalo que «10º4ª» é pior do que «10.º 4.ª», com pontos de abreviatura e espaço). Seria «tempos que a todos compromete[m]» (0.38); «a sociedade impõe estilos e estereótipos [e creio ouvir «de letra», o que não faz sentido]» (0.50). Expressão oral Bastante razoável a leitura em voz alta. Há trechos que percebo mal, porque foram lidos «para dentro» (0.36 [«vivemos dias?]; e o citado aos 0.50). Pronúncia mais comum de «estereótipos» é proparoxítona (esdrúxula), mas ouve-se no filme «estereot[í]pos».



Catarina S.



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Catarina S. (16,5) Texto/Estrutura Apesar do título, «Ontem, Hoje e Amanhã», o microfilme de Catarina é menos uma autobiografia do que um autorretrato. O filme está feito com originalidade estética (no tipo de imagens, nalguns recursos de som), embora também com azares técnicos (o som está demasiado baixo, pelo que não é cómoda a audição; as imagens ficaram numa moldura reduzida). O texto está bem escrito, não tendo eu notado alguma incorreção. Expressão oral Dado o volume baixo, tem de se fazer esforço para acompanhar a leitura em voz alta. Se o fizermos, percebemos que se trata de leitura bastante boa, em que se conseguiu adotar estilo expressivo, sem que se perdesse naturalidade, mantendo um registo coloquial e agradável. Parece-me haver ligeiro «tropeção» em «E, nisso, sou como uma [?] pessoa da minha família» (mas não tenho a certeza de ter ouvido bem).


Francisco Hipólito



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Francisco Hipólito (16,6) Texto/Estrutura Trata-se de uma narrativa, com bastante de alegórico: varanda, vista para o exterior, verões, devem ser lidos como representação de espaço da infância/autor, dos outros, da passagem do tempo. E a lição desta alegoria segue um sentido contrário do da maioria dos microfilmes que se ocuparam da infância: aqui o mundo infantil não é forçosamente melhor, descobrindo-se, no final, que aquele «meu mundo infantil», espaço que se considerava seguro e o único feliz, era uma redoma perfeitamente ultrapassável. É um bom, aliás muito bom, texto. Faço só notar que «haviam problemas» é erro (o verbo «haver», verbo impessoal, só se usa na 3.ª pessoa do singular — note-se que «problemas» é o complemento direto; e que «haver» pode surgir no plural mas apenas enquanto auxiliar de outro verbo: por exemplo, «haviam de sair»). Em vez de «relembrar», poria «lembrar» Expressão oral Boa leitura em voz alta, ainda que em registo neutro, controlado. Em «parecia que, aos poucos, ia ficando mais pequena», houve pausa excessiva (como tenho repetido, à pontuação gráfica não tem de corresponder sempre pausa na leitura em voz alta).


Gonçalo N.



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Gonçalo N. (14-14,3) Texto/Estrutura É um autorretrato que, como em tantos outros casos, perde por assentar sobretudo na declaração de gostos ou na afirmação de qualidades e defeitos. O texto acaba por ter de seguir um esquema (gosto de/não gosto de; sou/faço) que impede uma redação mais complexificadora. Ainda assim, o autor consegue, aqui e ali, uma aproximação irónica, criativa, mesmo se falta acabamento, cuidado de revisão, linguagem mais vigiada. Tratando-se de texto formal, devia fugir-se a léxico como «chatear»; em vez de «existe certos aspetos», teria de ser «existem» (ou «há», que até fica melhor). Também a escolha das imagens seguiu a via menos trabalhosa. Expressão oral A pressa com que o texto é abordado (para ir seguindo o surgimento de cada imagem?) marca toda a leitura em voz alta. Em geral, o Gonçalo mostra saber fazer as entoações (um bom exemplo disso é quando refere em aparte, dito com expressividade, «E até o é, a maior parte das vezes»), mas vai tão veloz que não podemos segui-las. Bastaria ter lido com mais calma (bastante mais calma, diga-se), para que o resultado fosse muito melhor. Além da rapidez excessiva, há uns casos de pausas demasiado segundo a pontuação escrita (em «que, mesmo às vezes chateando-se, [...]», como também aconteceria um pouco mais à frente em «pelo que, não gostando da posição em o meu treinador me coloca, [...]). Não tenho a certeza de ter ouvido «não me denomino por nerd» (ou «não me domino por [?]»?) — o que é certo é que a pronúncia não está clara neste passo.



Beatriz



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Beatriz (16-15,8) Texto/Estrutura O filme, através das sequências de imagens, tiradas de ângulos diversos e fragmentadas, transmite bem a ideia de correria, movimento, confusão, certa dispersão e alegria, em que consiste um dia de estudante da ESJGF («correr» era também, se não me engano, um dos verbos do início do texto). A música contribui para a sensação de permanente euforia. O texto da Beatriz acaba por descrever essa rotina (mas rotina de velocidades, não rotina lenta), em estilo que talvez pudesse ser mais trabalhado, de forma a que não ficássemos apenas com o relato, bastante resumido, e houvesse já alguma reflexão sobre as rotinas em causa — há um certo desperdício do tempo: enquanto a música continua, parece-me que poderia haver mais texto. Logo no início seria: «igual [ao de] todas as pessoas» (e não: «igual a todas as pessoas»); e, num registo destes, era de evitar o «etc.». Expressão oral Volume da música e certa rapidez da pronúncia tornam o texto, por vezes, um pouco incómodo de perceber rigorosamente. Não me apercebi de más entoações ou de alguma incorreção da leitura em voz alta, mas é verdade que o texto não punha grandes dificuldades (e há os tais momentos de dicção pouco nítida, por rápida).



Alexandre A.



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Alexandre A. (15,8-16) Texto/Estrutura Embora o esquema seja o habitual da narração nos filmes do género «um dia na vida de...» — e, portanto, a escrita não seja sofisticada, porque obrigada ao percurso dos horários de um dia —, o texto fica valorizado com algumas observações irónicas (veja-se, por exemplo, o final). Correção a fazer: em vez de «a minha vida não é como uma história de ação daquelas em que aparece nos filmes de [...]», teria de ser «a minha vida não é como uma história de ação daquelas que aparecem nos filmes de [...]». Entre 1.15 e 1.19 há duas vezes formas do verbo «apoiar», repetição que é sempre de evitar; e, entre 0.45 e 0.48, também duas vezes «escola» Expressão oral A leitura do Alexandre é bastante razoável, mas, em alguns trechos, apressada. «Cumprimento» quase soou como «comprimento».



Artur



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Artur (17,2) Texto/Estrutura Vejamos as várias fases do microfilme: (1) antes do filme propriamente dito — a negro, texto bem escrito, com humor, a anteceder as peripécias (a maior ironia está, no entanto, no despertador: dez horas); (2) a saída — esta é a parte que terá implicado mais filmagens e montagem. O humor vem agora do choque entre o que é dito — o pequeno almoço substancial e nutritivo, a tranquilidade da saída — e o que nos mostram as imagens — o leite bebido num trago, a atribulada escolha de elevador, a correria desenfreada mas desencontrada do carro. (3) a chegada à escola — aqui a ironia é levemente crítica, resultando do escrito no cartaz afixado. (4) o castigo — o humor resulta do contraste entre a confiança declarada (enquanto se joga, anuncia-se que houve uma má nota mas que não será descoberta) e a evidência, «em direto», da falibilidade dessa paz. Quer a representação (um pouco no estilo dos filmes de Jacques Tati) quer o texto em si são inteligentes. O filme revela também boa noção de como se traduz, em cinema, uma narrativa. Tenho dúvidas sobre as soluções «a minha vida dava um filme!» e «boa!», enquanto fecho das cenas respetivas. No cartaz, não tenho a certeza de ter visto o acento em «há». Expressão oral Aqui e ali, sobretudo na locução em off (na narração), teria sido fácil o Artur repetir a leitura até esta ficar sem falhas. Por exemplo, houve hesitações claras em «sobre tudo o que acontece» (0.18) e em «para a parte de baixo do prédio» (1.57).


Miguel B.



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Miguel B. (13) Texto/Estrutura Procurarei ser rápido, como também o Miguel é sempre na conclusão dos seus trabalhos. O texto é inteligente, soa-nos crítico, observador, irónico. Adota-se um «eles», em vez de um «eu», mas inferimos logo que se trata de um equivalente da primeira pessoa do plural, «nós» [= ‘os estudantes’]; outra originalidade é que se perspectiva toda a semana (e não um único dia). Num texto que se pretendia formal, deviam ter-se evitado expressões como «e tal» ou «fazer porcarias». Expressão oral A leitura em voz alta não foi devidamente ensaiada.