Aula 35-36
Aula 35-36 (5 [1.ª], 6 [3.ª], 7/nov [4.ª]) Correção de
comentário contrastivo José Gomes Ferreira vs. Ricardo Reis.
[Exemplo de redação:]
Segundo o sujeito poético
da ode de Ricardo Reis, cada ser humano vive («cumpre o destino») conforme o
que lhe está de antemão reservado («que lhe cumpre», v. 1). A comparação dos
homens com «as pedras nas orlas dos canteiros» (v. 5) acentua a impossibilidade
de resistência relativamente ao que está determinado pelo Fado. Todo o poema
tem um tom exortativo, aconselhando a que se reconheça a efemeridade da
existência e assumindo uma filosofia de vida assente na resignação e na
aceitação do poder do destino.
O poema de José Gomes
Ferreira, ao contrário, ainda que retome certas características formais das
odes de Reis e adote o mesmo tom imperativo, defende que se viva sem a inércia
sugerida nas odes, antes «pleno e forte / num frenesim / de arremesso»(vv. 5-7),
ficando subentendido que cada um deve ter objetivos por que lutará, deixando um
legado útil à humanidade (« Para que a tua morte / seja sempre um fim / e nunca
um começo», vv. 8-10).
parte B
Leia os dois textos e as notas. Na resposta aos itens de 4. a
6., tenha em consideração ambos os textos.
O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos; posto que o
trato das armas, o rigor das estações, e o selo visível dos cuidados que trazia
estampado no rosto, acentuassem já mais fortemente, em feições de homem feito,
as que ainda devia arredondar a juventude.
A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo
e forte como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e
decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo
sobretudo militar – espécie de great-coat1 inglês que a
imitação das modas britânicas tinha tornado familiar nos nossos bivaques2.
Trazia-o desabotoado e descaído para trás, porque a noite não era fria; e
via-se por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores,
realçada de seus característicos alamares3 pretos e avivada de
encarnado...
Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas
recordações – que essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e
respeitado nesta terra, proscreveram4 do exército... por muito
português de mais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins5 da
alfândega, reformaram-no em uniforme da bicha6!
Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras me
perdoem por interromper com ela o meu retrato.
Mas quando pinto, quando vou riscando e
colorindo as minhas figuras, sou como aqueles pintores da Idade Média que
entrelaçavam nos seus painéis dísticos de sentenças, fitas lavradas de
moralidades e conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e atitudes
expressão bastante para dizer por eles o que assim escreviam, e servia a pena
de suplemento e ilustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio
eu no mesmo defeito...
Será; mas em mim é irremediável, não sei pintar de outro modo.
Voltemos ao nosso retrato.
Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza
imensa, denunciavam o talento, a mobilidade do espírito – talvez a
irreflexão... mas também a nobre singeleza de um carácter franco, leal e
generoso, fácil na ira, fácil no perdão, incapaz de se ofender de leve, mas
impossível de esquecer uma injúria verdadeira.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, 2.ª ed.,
Lisboa, Portugália, 1963, pp. 148-149.
– Meu pai! Não meta este senhor em maiores trabalhos! – disse
Mariana.
– Não tem dúvida, menina – atalhou Simão; – eu é que não quero
meter ninguém em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ela seja, hei
de eu lutar sozinho.
João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura
raras vezes se enobrecia, disse:
– Senhor Simão, Vossa Senhoria não sabe nada do mundo. Não
meta sozinho a cabeça aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando
pegam de ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rústico;
mas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia que o mal dos seus burrinhos
o fizera alveitar7. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem com
elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se
há de um homem botar a perder8. Mulheres há tantas como a praga, e
são como as rãs do charco, que mergulha uma, e aparecem quatro à tona d’água.
Um homem rico e fidalgo como Vossa Senhoria, onde quer, topa uma com um palmo
de cara como se quer, e um dote de encher o olho. Deixe-a ir com Deus ou com a
breca, que ela, se tiver de ser sua, à mão lhe há de vir dar, e tanto faz andar
pra trás como pra diante, é ditado dos antigos. Olhe que isto não é medo,
fidalgo; tome sentido, que João da Cruz sabe o que é pôr dois homens duma feita
a olhar o sete-estrelo9, mas não sabe o que é medo. Se o senhor quer
sair à estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo, e a um regimento, se for
necessário, eu vou montar na égua, e daqui a três horas estou de volta com
quatro homens, que são quatro dragões.
Simão fitara os olhos chamejantes nos do ferrador, e Mariana
exclamara, ajuntando as mãos sobre o seio:
– Meu pai! não lhe dê esses conselhos!…
– Cala-te aí, rapariga! – disse mestre João. – Vai tirar o
albardão10 à égua, amanta-a, e bota-lhe seco. Não és aqui chamada.
– Não vá aflita, senhora Mariana – disse Simão à moça, que se
retirava amargurada. – Eu não aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ouço-o
com boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a honra
e o coração me aconselhar.
Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição,
edição de Aníbal Pinto de Castro, Porto, Caixotim, 2006, pp. 194-195.
notaS
1 great-coat – espécie de sobretudo; casaco comprido. || 2
bivaques – modalidade de estacionamento de tropas em que estas se alojam
em tendas de campanha ou abrigos improvisados. || 3 alamares
– cordões metálicos que guarnecem, pela frente, uma peça de vestuário, de um
lado ao outro da abotoadura. || 4 proscreveram – baniram;
afastaram. || 5 beleguins – oficiais de justiça. || 6
uniforme da bicha – uniforme de aspirante a oficial. || 7 alveitar
– referência a alguém cujo conhecimento assenta na experiência de vida; aquele
que trata de doenças de animais, sem diploma legal. || 8 botar a
perder – deitar a perder. || 9 sete-estrelo – grupo de
estrelas na constelação das Plêiades; as estrelas. || 10 albardão
– sela grande; assento grosseiro que se coloca no dorso da cavalgadura para a
montar.
* 4. O «oficial» e Simão
apresentam características que permitem defini-los como heróis românticos.
Explique o modo como uma dessas características, comum a ambas as personagens,
se manifesta em cada uma delas. Na sua resposta, comece por identificar a característica
comum às personagens.
* 5. O narrador, num caso, e
João da Cruz, no outro, exprimem opiniões sobre o que observam no mundo em que
vivem. Explicite uma opinião defendida por cada um deles.
6. Selecione a opção de
resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.
Nos excertos transcritos, é possível identificar
características das narrativas do Romantismo.
Por exemplo, no excerto de Viagens na Minha Terra, o
narrador interrompe o retrato da personagem para introduzir reflexões.
Terminadas essas reflexões, afirma «Voltemos ao nosso retrato.» (linha 25),
expressão através da qual se dirige ____________.
Por seu lado, no excerto de Amor de Perdição, é
percetível a diferença de classe social das personagens, entre outros aspetos,
através ____________.
(A) às leitoras … do registo
de língua usado por João da Cruz
(B) ao «oficial» … da altivez
revelada por Simão
(C) às leitoras … da altivez
revelada por Simão
(D) ao «oficial» … do registo de língua usado por João da Cruz
Podes ver características do herói romântico na p. 403.
Responde a 4.
Na pergunta 4: identificação de uma característica de herói
romântico comum aos dois excertos + explicar como essa característica se revela
em cada um dos excertos:
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Depois de vermos pequenos trechos destes episódios de 1986, preenche a tabela em baixo:
https://www.rtp.pt/play/p4460/e599390/1986;
https://www.rtp.pt/play/p4460/e599399/1986;
https://www.rtp.pt/play/p4460/e599407/1986;
https://www.rtp.pt/play/p4460/e599408/1986.
1986 — Patrícia (e Sérgio) |
Amor de Perdição — Mariana (e Simão) |
Há mensagens de paixão não assumida |
|
Por exemplo, os escritos nas
______ da então Escola Secundária de Benfica. |
Por exemplo, o ______ de Mariana
ao ver o sangue de Simão. |
Outros, sem querer, adivinham a paixão escondida |
|
Depois de assistir a uma discussão
entre Sérgio e Patrícia, Tiago comenta: «Vocês parecem um casal de ________».
|
Depois de a filha desmaiar, João
da Cruz assinala, brincando, a sua exagerada ________ perante a ferida de
Simão. |
Pais são adjuvantes |
|
Pai de Sérgio, representado por
Nuno Markl, transporta mesa depois de convencer direção da Escola Secundária
de Benfica de que se tratava de expediente para, mais tarde, melhorar o
mobiliário do importante ________ de ensino. |
João da Cruz, ao valorizar a filha
relativamente às «fidalgas», ao dar-lhe o encargo de apoiar o enfermo,
favorece proximidade de Mariana e Simão. Além disso, depois de assassinado o
ferrador, é a _______ que vai ajudar Mariana a consagrar-se ao apoio a Simão. |
As apaixonadas são como irmãs ou colegas,
dedicam-se ao seu amor sem exigir reciprocidade |
|
Coleção de cromos, despiques sobre
gostos musicais ou sobre o Jornal do Incrível mostram que Patrícia
aceita desempenhar esse papel de simples colega, companheira dos lazeres,
ainda que vão surgindo «arrufos de _______». |
É o próprio Simão que trata
Mariana por «minha irmã», ao mesmo tempo que descarta qualquer outro tipo de
relação («Pudesse eu ser o ______ de sua filha», diz ele para João da Cruz). |
As duas apaixonadas ajudam as rivais |
|
Patrícia vai ouvindo os projetos
de Sérgio relativamente à loira desconhecida, disfarçando a contrariedade,
troçando dele mas colaborando nos seus planos (cujo conhecimento servirá o
seu propósito). É ______ de Sérgio acerca dos seus anseios quanto à putativa
amante. |
Mariana apoia sempre Simão no amor
por Teresa, por exemplo, levando e trazendo correspondência. O ciúme que
sente não a leva a agir contra quem ama aquele que ela ama. É a ______ de
Simão acerca do seu amor por Teresa. |
Apaixonadas revelam tardiamente a sua paixão |
|
Patrícia nada diz a Sérgio até ao
dia das eleições; nessa altura aparece ela no encontro marcado, em vez da
_____. Sérgio percebe finalmente os sentimentos de Patrícia, aceita a sua
aproximação, parece esquecer a loira e acolhe bem a nova situação. |
A partir de certa altura, Mariana
assume que, mesmo sem ser a escolhida por Simão, quer estar sempre a seu
lado. Simão percebe que ela o ama, quer _____ de alterar assim a vida por
ele, mas nem por isso a impede de continuar a seu lado. |
As apaixonadas acabam por ficar ao lado do seu
herói |
|
No dia das
eleições e do encontro crucial, Patrícia cumpre o desejo de ______ Sérgio. O
elemento masculino do par parece acomodar-se à situação sem mostrar demasiada
surpresa. |
No dia do
lançamento do cadáver ao mar, Mariana cumpre o desejo de não ______ Simão. O
elemento masculino do par parece acomodar-se à situação sem mostrar demasiada
surpresa. |
E, afinal, qual é o verdadeiro par romântico (no sentido de par de «heróis românticos») de 1986?
Quem luta contra o que esperam deles, enfrentando o senso comum? Quem tem
preocupações com a liberdade, a sua e a dos outros? Quem quebra barreiras
sociais (ou, neste caso, de papel profissional)?
É
o par {escolhe, circundando:} Marta-Tiago, Patrícia-Sérgio,
Mariana-Gonçalo, Eduardo-Alice.
TPC — Vê o que tentarei deixar na Classroom / no blogue
acerca de leituras (para que quem queira possa ir aproveitando já estes dias
que aí vêm).
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