Sunday, September 08, 2024

Aula 32-33

Aula 32-33 (4 [3.ª], 5 [4.ª], 7/nov [1.ª]) Correção do texto criado segundo o molde de «Dobrada à moda do Porto» na aula 31.

Num destes tepecês, pedira-te que lesses a ode «Prefiro rosas, meu amor, à pátria» (p. 74), de Ricardo Reis. Completa agora uma sua análise, preenchendo as lacunas com as seguintes palavras:

compromisso — egoisticamente — paralelismos — natural — quietismo — desvalorizar — apóstrofe — sofrimento — renovação — interrogação — indiferença — distante — vida — confidente — classicizante — flores — epicurista — imperturbável — preocupações — fluir

O poeta revela-se inclinado à _____, ao apagamento, ao _____, à ausência de _____ com o que quer que seja, à rejeição do não ______. Ele exercita-se na arte de ser «aquele a quem já nada importa».

«As outras coisas que os humanos / Acrescentam à vida» (vv. 13-14) opõem-se aqui ao que é natural, representado pelas _____ de gosto clássico — as rosas (que o poeta prefere — v. 1) e as magnólias (que o poeta ama — v. 2) —, pelo passar da _____ sem deixar marcas nem comprometer (notar os _____ de construção ao gosto clássico — «Logo que a vida» / «Que a vida» / «Logo que», vv. 4 a 6), pelo raiar da aurora (v. 9), pelo aparecer das flores, cada ano, com a primavera (símbolo da ______ — vv. 10-11) e pelo seu desaparecer com o outono (símbolo da negatividade e do ______ do tempo — v. 12).

Essas outras coisas não naturais nada «aumentam na alma» do poeta (notar a ______ retórica do v. 15) em termos positivos. Elas são o sentido de pátria (notar o grafismo em minúscula para ______ a importância da «pátria» — v. 1 —, com tudo o que «pátria» significa a nível coletivo e individual), a busca da glória e da virtude (v. 3 — que não deixam de ser mais preocupações), a ambição do poder e do fazer prevalecer _______ os próprios caprichos («Que um perca e outro vença» — v. 8).

Tudo isto, que só traz ao poeta «o desejo de indif’rença» (v. 16 — notar a grafia ______ do termo) «e a confiança mole / Na hora fugitiva» (vv. 17-18), nada lhe acrescenta. Ele só deseja manter-se sereno e ______, esperando que a passagem do tempo (a «hora fugitiva») se processe sem ______ («mole» — v. 17).

O destinatário do poema — o «meu amor» (v. 1) — assume aqui o papel de ______, e exprime a ideia de solidão e intimismo. O poeta dirige-se-lhe (notar a ______ do v. 1, encontrando-se o vocativo intercalado na frase, ao gosto clássico).

Apesar de referir esse interlocutor, Reis mostra aqui aspirar a um ideal contemplativo (marca ______) e ser nada inclinado à comunicação direta autêntica. Ele dirige-se ao seu amor mas não institui com ele quaisquer laços, antes se mostra ______. O que ele pretende instituir é uma filosofia de vida que lhe permita atravessar a existência sem _____.

Lino Moreira da Silva, Do Texto à Leitura (Metodologia da Abordagem Textual) Com a Aplicação à Obra de Fernando Pessoa, Porto, Porto Editora, 1989 (adaptado)

[Tarefa retirada do manual Expressões. 12.º ano, Porto, Porto Editora, 2012]

Vem sentar-te comigo, vamos não fazer nada

Viver no sofá e ver o dia passar

Entre séries e filmes, queijo e marmelada

Mimos e memes, e o resto deixa p’ra lá

Vem viver numa quinta onde só haja domingo

No campo respira-se melhor

Não falte vinho ou lareira, e isto uma vida inteira

Seja lá o tempo que isso for

 

E fazer da cama um castelo, e do ócio profissão

Partilha-me o teu novelo, que eu guardo-o bem na minha mão

Erguer um forte com mantas, viver em roupa interior

Acordarmos às tantas, dormir sem despertador

E, se for assim, eu nem desgosto do amor

 

Vem deitar-te comigo, em baixo e em cima de mim

Que esta corrida ganhas tu

E só saímos da cama quando nos der na gana

Depois voltamos para o round two

Anda para o meu lado, vem dançar um bocado

Que com três copos sou o Fred Astaire

Vem, aperta-me os braços, que eu conto os compassos

Vem ser a minha mulher, se for para

 

Fazer da cama um castelo, e do ócio profissão

Partilhar o teu novelo, guardá-lo bem na minha mão

Erguer um forte com mantas, viver em roupa interior

Acordarmos às tantas, dormir sem despertador

E, se for assim, eu nem desgosto do amor

Nuno Lanhoso, Mitos e Nicolaus, 2022

 

A canção «Nem desgosto do amor» (cfr. p. 68), de Nuno Fanhoso, cuja letra transcrevi em cima, ainda que tenha um v. 1 anafórico de «Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio» (p. 68), não revela a exata perspetiva assumida na ode de Ricardo Reis. Desenvolve esta ideia. Mais do que te reportares especificamente a esta ode, podes focar-te na filosofia de Ricardo Reis genericamente:

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[A copiar:]

Ainda que tenha em comum com a ode de Reis o convite feito pelo sujeito poético a uma mulher, a letra da canção de Lanhoso não adota a atitude de abdicação, conformista, de absoluta cedência ao que o destino disponha, típica do estoicismo de Ricardo Reis. Embora se comece por uma aparente renúncia à proatividade («vamos não fazer nada», v. 1), seguem-se depois apelos a uma fruição incontida, que tem pouco que ver com a moderação do epicurismo-estoico («voltamos para o round two», v. 17; «acordarmos às tantas», v. 12; «com três copos sou o Fred Astaire», v. 19).

Antes de vermos mais um trecho de Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir, atentemos no poema de Walt Whitman (1819-1892), «O Captain! my Captain!», que o protagonista, John Keating, citava logo na sua apresentação aos alunos. Logo perceberemos como Álvaro de Campos e os futuristas foram influenciados pelo poeta americano — já para não falar dos poetas da geração beat, como Allen Ginsberg, que conhecemos de Howl (1956).

Ó CAPITÃO! MEU CAPITÃO!

Ó capitão! meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,

O navio resistiu a todas as tormentas, o prémio que buscávamos está ganho,

O porto está próximo, oiço os sinos, toda a gente está exultante,

Enquanto seguem com os olhos a firme quilha, o ameaçador e temerário navio;

               Mas, oh coração! coração! coração!

                              Oh as gotas vermelhas e sangrentas,

                                            Onde no convés o meu capitão jaz,

                                                           Tombado, frio e morto.

 

Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;

Ergue-te — a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;

Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas — para ti as multidões nas praias,

Chamam por ti, as massas agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;

               Aqui capitão! querido pai!

                              Passo o braço por baixo da tua cabeça!

                                            Não passa de um sonho que, no convés,

                                                           Tenhas tombado frio e morto.

 

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,

O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,

O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,

O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objectivo ganho:

               Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!

                              Mas eu com um passo desolado,

                                            Caminho no convés onde jaz o meu capitão,

                                                           Tombado, frio e morto.

Walt Whitman, Folhas de Erva [Leaves of Grass, 1855], II, trad. de Maria de Lourdes Guimarães, Lisboa, Relógio D’Água, 2002, p. 599

Ainda antes de falar aos seus alunos em Walt Whitman, Keating aludira a um verso do poeta romano Horácio (65 a.C.-8 a.C.), onde se lê, em latim, carpe diem (que podemos traduzir por ‘goza o dia’, ‘colhe o dia’, ‘desfruta do presente’). A ode completa é esta (destaquei a negro o passo que interessa mais):

Tu não perguntes (é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,

os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.

Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,

quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.

Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança

um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:

colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

[Horácio, ode 11 do Livro I, Odes, tradução de Pedro Braga Falcão, Lisboa, Cotovia, 2008, p. 69]

O sentido horaciano de «colhe o dia» (carpe diem) é talvez mais conformista, mais passivo, do que aquele que sairá da interpretação comum do filme. Note-se, no último verso, o ‘confiando o menos possível no amanhã’. O sentido que lhe daria Ricardo Reis, e à filosofia epicurista, seria, naturalmente, o antigo, o clássico.

O filme citara antes o poema inglês — de Robert Herrick (1591-1674) — «To the Virgins, to Make Much of Time», em que se defende, a partir do exemplo da efemeridade das rosas, que devemos aproveitar a juventude, porque a vida é breve. Também neste passo se tratava de uma ideia comum ao epicurismo-estoicismo de Ricardo Reis.

Lê este poema do patrono da nossa escola, José Gomes Ferreira (1900-1985):

Vive em cada minuto

a tua eternidade

— sem luto

nem saudade.

 

Vive-a pleno e forte

num frenesim

de arremesso.

 

Para que a tua morte

seja sempre um fim

e nunca um começo.

José Gomes Ferreira, Poeta Militante, I, 3.ª ed., Lisboa, Moraes Editores, 1977

Num comentário, compara-o com a ode de Reis «Cada um cumpre o destino que lhe cumpre» (p. 77), procurando distinguir e/ou aproximar a «filosofia» de cada poema.

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Questionário de gramática

[Versão com cão King a alertar a aldeia]

Classifica quanto ao processo (irregular) de formação de palavras (extensão semântica, empréstimo, truncação, amálgama, sigla, acrónimo, onomatopeia):

Kamela (< Kamala + camela)

 

dossiê (< fr. dossier)

 

Santi (< Santiago)

 

IVA (pronunciado iva)

 

vírus [informática] < vírus

 

Zumbido

 

Ota (< Otamendi)

 

domótica (< domos [‘casa’] + informática)

 

SLB (pronunciado esseelebê)

 

Classifica quanto ao valor aspetual (genérico, perfetivo, imperfetivo, habitual, iterativo):

O cão King alertou a aldeia.

 

O King é o herói da aldeia.

 

O King costuma seguir a dona por toda a parte.

 

Olímpia andava a passear pelos campos.

 

Olímpia tem revelado, nestes últimos meses, múltiplos sinais de Alzheimer.

 

Flexiona o verbo, pronominalizando o que sublinhei:

Comerei o chocolate.

 

Amas Georgina?

 

Copia a frase.

 

Classifica quanto à função sintática os constituintes sublinhados:

O vestido transparente de Ana Moura provocou celeuma.

 

Não tremas, Terra, porque não queremos mais um terremoto.

 

Fábio Loureiro fugiu para Marrocos.

 

Os jornalistas elegeram Rodri bola de ouro.

 

Desenlacemos as mãos.

 

Delegados e subdelegados nomearam segunda suplente a Neves.

 

A alteração do futebol do Benfica é mérito do turco Artur.

 

O produtor de vinho está preocupado com a filoxera.

 

Em Chaves, um cão matou uma criança.

 

A Cova da Moura, que visitei há anos para fazer inquéritos dialetológicos, é pacata.

 

Em Valência, desapareceram bens e pessoas.

 

Estão aí as intercalares.

 

Mourinho, que os fãs admiram, usa a Uber Eats.

 

A falecida avó do menino, que era de Faiões, também era muito boa pessoa.

 

Fernando Valente, o principal suspeito, pode ser acusado até final do mês.

 

Son, que o treinador do Tottenham substituiu inesperadamente, ficou surpreendido.

 

Quatro dos golos foram marcados por Gyökeres.

 

Os donos de carros andam preocupados com a violência gratuita.

 

Os alunos ultrapassaram-me na chegada ao bloco.

 

A Amorim os sportinguistas desejam muitas felicidades.

 

Quando chover como em Valência, Lisboa sofrerá.

 

O afilhado de Marco Paulo ficou podre de rico.

 

Na Europa consideram-nos muito simpáticos.

 

[Versão com cão a atacar criança]

Classifica quanto ao processo (irregular) de formação de palavras (extensão semântica, empréstimo, truncação, amálgama, sigla, acrónimo, onomatopeia):

chave [‘solução’] < chave, ‘instrumento que abre portas, cofres, etc.’

 

TAP (pronunciado tape)

 

Ronronar

 

Mada (< Madalena)

 

nega (< negativa)

 

Chalanix (< Chalana + Asterix)

 

ateliê (< fr. atelier)

 

TPC (pronunciado tepecê)

 

espanglês (< espanhol + inglês)

 

Classifica quanto ao valor aspetual (genérico, perfetivo, imperfetivo, habitual, iterativo):

Em Faiões, a criança foi atacada pelo cão.

 

A Judiciária está a investigar a morte da criança.

 

A família costumava visitar os avôs sempre que possível.

 

Esta raça de cães tem ocasionado todas as semanas notícias tristíssimas.

 

A cadela é do avô do menino.

 

Flexiona o verbo, pronominalizando o que sublinhei:

Amaria Lídia.

 

Entrega a folha.

 

Bebes a cerveja?

 

Classifica quanto à função sintática os constituintes sublinhados:

A decisão sobre telemóveis está para breve.

 

Abriguem-se, alunos, porque vem aí um exercício de prevenção.

 

Designaram Marta Baptista representante dos alunos no Conselho Geral.

 

Os adeptos leoninos culpam Varandas pela venda de Amorim ao MU.

 

Georgina só agora regressou do hospital.

 

Os dragartos acharam Bruno Lage uma ótima escolha.

 

Dentro de poucos dias começam umas pequenas férias.

 

As cheias em Barcelona preocupam-nos.

 

Nunca deu problemas o cão que matou o bebé.

 

O homem que matou a sua companheira não sabe o que lhe passou pela cabeça.

 

Durante as eleições para a Associação, a escola fica caótica.

 

Odair, que abalroou uma data de automóveis, corria como se não houvesse amanhã.

 

Matilde Mourinho, que é joalheira, casou-se em Azeitão.

 

Mourinho, que os fãs adoram, encomenda muita coisa pela Uber Eats.

 

Filomena Silva, a tia da grávida da Murtosa, passou dias e dias sem dormir.

 

Porque há eleições para a AE, a escola está barulhenta.

 

O orçamento de estado foi aprovado pela maioria dos deputados.

 

Na prisão de Vale de Judeus, os telemóveis são mais mais que muitos.

 

Ao Sporting só pagam a cláusula.

 

A grávida da Murtosa continua desaparecida.

 

Abraço-te por mais este bom resultado.

 

Vem sentar-te comigo.

 

A saia azul de Kim custou milhares de euros.

 

TPC — Lê em Gaveta de Nuvens soluções das fichas 2 e 3 do Caderno de atividades, sobre Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Estes trabalhos são para ser feitos com mais estoicismo (neste caso, alguma abnegação) do que epicurismo (sei lá como colhem o dia).

 

 

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