Thursday, September 10, 2015

Análise de Frei Luís de Sousa e Canções pelo 11.º 12.ª



Ana N. [Bom + {tal como as notas seguintes, esta apreciação diz respeito sobretudo à primeira versão do texto, embora tenha tentado também vigiar a revisão havida}]
A canção “The Lovers Are Losing”, da banda inglesa Keane, reflete com bastante coerência o estado de espírito de D. Madalena de Vilhena, com todas as suas agonias e ânsias. A letra estabelece, de certa forma, uma analogia com a tragédia que Madalena vive intensamente, durante praticamente toda a peça de Almeida Garrett.
Os primeiros versos da música podem ser, de imediato, associados às superstições e agouros que envolvem Madalena quanto à possibilidade do regresso de D. João de Portugal. Os versos “I dreamed I was drifting / On the howling wind / I dreamed I had nothing at all / Nothing but my own skin [Eu sonhei que estava à deriva / sobre um vento uivando / Eu sonhei que não tinha mais nada / Nada para além da minha própria pele]” são uma boa representação dos sentimentos constantemente demonstrados por Madalena. Esta vive no terror da premonição de acontecimentos desfavoráveis para a sua vida, quase como se estivesse sempre a sonhar com as consequências catastróficas que trariam esses pressentimentos: “Mas tu não sabes a violência, o constrangimento de alma, o terror (…)” ou mesmo “Tenho este medo, este horror de ficar só… de vir a achar-me só no mundo”. Tal como na letra, Madalena teme que esses presságios sejam reais e a levem a ficar desamparada.
O dístico “Slipped away from your open hands / Into the river [Escapei-me das tuas mãos abertas / Para o rio]” poderá estar relacionado com a sensação que Madalena experienciou quando se encontrou sozinha numa data tão fatídica como a sexta-feira que decorria, em que fazia anos que casara com D. João de Portugal, que se dera a batalha de Alcácer Quibir e que vira pela primeira vez o amado marido Manuel de Sousa Coutinho (“Sexta-feira! (Aterrada.) Ai que é sexta-feira!”). Madalena pede a Manuel que não a deixe mas este, prometendo não demorar, deixa-a escapar das suas mãos tão habitualmente protetoras (“Meu esposo, meu marido, meu querido Manuel!”).
Continuando a analisar a letra da música dos Keane, notemos que tudo parece encaixar com os vários horrores de Madalena. Segundo a frágil filha, Maria, na cena I do ato Segundo, Madalena achou-se num momento de pura aflição ao deparar-se com o retrato de D. João de Portugal. Já se encontrava ela num estado de ansiedade indiscutível devido à mudança para a sua antiga casa, apesar das várias tentativas de convencer Manuel a não recorrerem a essa solução (“Mas oh! Esposo da minha alma… para aquela casa não, não me leves para aquela casa!”). Desta forma, a situação em que Madalena encarou o quadro de D. João (“põe de repente os olhos nele e dá um grito. Oh, meu Deus!… ficou tão perdida de susto, ou não sei de quê, que me ia caindo em cima”) encontra-se perfeitamente descrita também na letra da música: “Saw your face looking back at me / I saw my past, and I saw my future [Vi o teu rosto a olhar de volta para mim / Eu vi o meu passado e o meu futuro]”. Madalena, instalada com a sua família atual na casa onde viveu com o ex-marido, enfrenta incessantemente o seu passado e todas as memórias ali criadas e, mais tarde, enfrentará um destino a que não pode escapar.
Perante todos os trágicos e fatídicos acontecimentos que vão ocorrendo a Madalena e à sua família durante a peça, chegaremos a um desfecho inevitável. Com a entrada da personagem designada “Romeiro”, que mais tarde percebemos ser o próprio D. João de Portugal vinte e um anos mais velho e irreconhecível, dá-se o desastroso desenlace. A família de Madalena de Vilhena e de Manuel de Sousa Coutinho estará condenada à destruição. Infelizmente, apercebemo-nos de que “But any way you look at this / Looks like / The lovers are losing [Mas de qualquer maneira que se olhe para isto / Parece que / Os amantes estão a perder]” e que o amor que prevaleceu entre Madalena e Manuel estava já destinado a ser alvo de dificuldades trágicas.

Márcia [Suf+]
A música que eu escolhi para este trabalho foi “Um novo adeus”, de Rosa de Saron. Escolhi-a porque tem uma certa relação com a peça. Quando no primeiro ato, na cena II, Madalena se mostra preocupada com o facto do seu marido, Manuel, não aparecer (“Que me está dando cuidado demora de meu marido em Lisboa”) e vai à varanda, podemos relacionar isso com os versos, “Passo os dias e olho sempre minha janela / E eu conto cada hora para que você volte aqui”, já que em ambos os casos estão presentes o sentimento de saudade e preocupação com os seus amados.
Já quando na música se nos diz (“E peço a Deus que venha aqui / E ajude a me recompor / Vem me abraçar neste doce reencontro”), somos recordados de quando Madalena se vê obrigada a mudar-se para casa do seu falecido esposo D. João, e fica devastada, precisando que Manuel lhe dê apoio e o carinho de que ela tanto precisa, pedindo assim que fique lá com ela: “Triste porquê? As tristezas acabaram. Tu ficas aqui já de vez, não me deixas mais, não sais de ao pé de mim? Agora, olha, estes primeiros dias, ao menos, hás de me aturar, hás de me fazer companhia. Preciso muito, querido”.
Quanto ao verso, “Mas minha vida corre com tanta pressa lá fora”, podemos relaciona-lo com o momento em que Madalena e Telmo falam do crescimento e da beleza que tem Maria, filha de Madalena. (Madalena — “É verdade tem crescido de mais, e de repente, nestes dois meses últimos…”; Telmo — Então! Tem treze anos feitos, é quase uma senhora, está uma senhora”). Nesta cena, Madalena pede também a Telmo que não volte a falar com Maria sobre as histórias do passado, pois a filha ainda era muito nova para compreender o que já sabia.
Na cena I do ato segundo, Maria pede a Telmo que lhe diga quem é a pessoa que está no retrato presente na parede (“De quem é este retrato aqui, Telmo?”), o que podemos relacionar com a parte em que na canção se diz, “Sente aqui bem ao meu lado e conte uma história”, pois Maria gostava de que Telmo falasse com ela e lhe contasse histórias que se teriam passado anteriormente mas, desta vez, Telmo não lhe poderia dizer quem era o senhor que se encontrava no retrato, nem o que com ele vivera, pois Madalena pedira-lhe para não o fazer.
Por fim, quando Madalena chega à casa de D. João, depara-se com o tal retrato que futuramente a vai atormentar e fazer com que fique abalada, pois não quer rever as memórias do seu ex-marido, (“Minha mãe, que me trazia pela mão, põe de repente os olhos nele e dá um grito”). Podemos identificar esse passo com a frase da letra “Fotos passadas retratam toda a sua ausência”, já que com isto podemos concluir que ambos —Madalena e o sujeito poético da canção de Rosa Saron — tinham o mesmo sentimento de dor, que era marcado pela saudade e não queriam relembrar um passado que só os iria destroçar e afetar mais.

Patrícia [Suf +]
A conhecida canção “Eu Tenho Dois Amores”, cantada por Marco Paulo, faz recordar várias personagens de Frei Luís de Sousa e a respetiva história, como o amor entre Madalena e o seu falecido marido, D. João de Portugal, e o amor atual de Madalena por Manuel de Sousa Coutinho.
Adequa-se bastante à personagem Madalena, visto que ela se casou duas vezes e nutre sentimentos pelos dois maridos. O primeiro marido morreu na batalha de Alcácer Quibir e o segundo continua a seu lado (“Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memória…”; “Meu marido, meu amor, meu Manuel”). A canção fala exatamente de dois amores, distintos, que lutam por um lugar maior no coração de quem os ama (“Eu tenho dois amores / Que em nada são iguais”).
D. João de Portugal foi dado como morto na batalha, tal como o rei de Portugal, D. Sebastião. Como se esperava que este aparecesse um dia em Portugal para assumir o trono perdido para os espanhóis, Madalena tinha esperanças de que D. João regressasse também para junto dela. Mas esta ideia assombrava-a, pois temia, que quando este voltasse, se intrometesse na relação que tinha criado com o atual marido e a filha destes, Maria (“Oh, perdoa, perdoa-me, não me sai esta ideia da cabeça… que vou achar ali a sombra despeitosa de D. João, que me está ameaçando com uma espada de dois gumes… que a atravessa no meio de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre…”).
Manuel, o homem com quem agora casara, tinha bastantes inimigos, e a perspetiva de que o destino deste homem fosse incerto pesava-lhe no pensamento. A ideia de deixar a filha órfã de pai tornava tudo mais assustador. Manuel, embora respeitasse D. João, (“Aquele era D. João de Portugal, um honrado fidalgo e um valente cavaleiro.“). Sabia que a mulher não se esquecera dele. Este teve a ideia de se refugiarem na casa de D. João, para fugir aos inimigos, que fez com que Madalena revivesse o passado (“Minha mãe, que me trazia pela mão, põe de repente os olhos nele e dá um grito.”).
No final da peça de Garrett, Madalena descobre que D. João está vivo, através do Romeiro, que se percebe ser o próprio, sem esta ter desconfiado. O pensamento de que este podia mesmo voltar, mais a perda de Maria, devido também a tuberculose, e de Manuel, para o clero, fez com que Madalena se sentisse deprimida. As memórias que tinha dos dois maridos estavam guardadas para sempre no seu coração e ela teria que viver com isso. Ao contrário da canção, a decisão não é de lembrar os dois e ser feliz (“Meu coração continua / Sem saber o que fazer / É melhor amar as duas”), mas de se afastar, tal como o marido, da vida secular.

Joana S. [Bom/Bom (-)]
A canção de Evanescence “My Immortal [Meu imortal]” conduz-nos ao enredo da peça de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, pois exprime, em certa medida, o sentimento de angústia e os agouros de Madalena de Vilhena em relação ao possível regresso do seu primeiro marido, D. João de Portugal.
Na obra de Garrett, Madalena há sete anos que nada sabia sobre D. João de Portugal, que se pensa ter morrido na Batalha de Alcácer Quibir. Passados sete anos, Madalena casa-se com Manuel Sousa Coutinho, com quem tem uma filha, Maria. Maria sofre de tuberculose, uma doença bastante propagada naquela época. Apesar de quase todos acreditarem na morte de D. João, Madalena não se consegue livrar da sua presença. Os seus receios tornar-se-iam ainda mais intensos quando é obrigada a mudar-se com sua família para a antiga casa de D. João. Esta mudança repentina deixa-a em pânico. A frase “And if you have to leave, I wish that you would just leave [E se tens que ir, eu desejo que apenas vás]”, da canção “My Immortal”, permite-nos a perceção do sentimento de Madalena em relação a D. João, desejando que este não reentre na sua vida.
Todavia Madalena vive atormentada com a carta que o primeiro marido deixara a Frei Jorge antes de ingressar na sua última batalha: “Vivo ou morto, Madalena, hei de ver-vos pelo menos ainda uma vez neste mundo”. Esta carta e as alusões de Telmo provocam intranquilidade e aflição a Madalena, que sentimos durante quase toda a peça, até se iniciar a grande reviravolta.
Por outro lado, esta música também pode ser vista da perspetiva de Telmo, o velho aio. Este, ao longo de vários anos e apesar da permanente falta de notícias, mantivera sempre D. João no seu pensamento: “I've tried so hard to tell myself that you're gone [Bem tentei convencer-me de que tu te foste]”. Telmo nunca deixou de acreditar que, por alguma razão, “no fim de vinte anos de o julgarem todos perdido”, D. João ainda estava vivo e iria regressar, ao contrário do que toda a gente pensava. Esta íntima fé vai enchendo a casa dos Coutinho de negros auspícios.
Durante o primeiro ato, é-nos nos dada a informação de que Maria, filha de Madalena e de Manuel Sousa Coutinho, acreditava que D. Sebastião não morrera em Alcácer Quibir e que em breve regressaria. Este pensamento de Maria deixa a mãe num estado de angústia profunda e tormento, temendo o regresso de D. João ao mesmo tempo que D. Sebastião.
Esta atitude de Madalena revela-nos o pavor e apreensão de que D. João de Portugal a separe da sua filha e do seu marido (“Cause your presence still lingers here [Pois a tua presença permanece aqui, e ela não me deixará em paz]”.
Podemos ainda aplicar o que é dito na canção a D. Madalena em “Your face it haunts my once pleasant dreams [O teu rosto assombra os meus sonhos, que já foram agradáveis]”. Há já muito que a pobre mulher suspeitava da chegada de uma catástrofe, que haveria de mudar a sua vida, a do esposo e a da filha. Madalena não aguenta o facto de saber que a filha é fruto de uma relação em pecado e que o seu casamento é ilegítimo, sendo submetida a uma violência sentimental imposta pela alma do seu primeiro marido.
No fundo, esta canção aplica-se aos sentimentos de D. Madalena que, analogamente a todo o seu drama vivido, achava que “[t]here's just too much that time cannot erase [há muita coisa que o tempo não pode apagar]”.

André F. [Bom]
A mensagem transmitida por Dillaz, ao longo da canção “Chegas e pronto”, molda-se à relação de cumplicidade entre Telmo e o romeiro, D. João de Portugal. A chegada deste último veio mexer com a trama, deixando todos inquietos, tal como suscita o título da música.
Durante todo o desenrolar do drama, é notório o comportamento nostálgico adotado por Telmo que, sempre que tem oportunidade, faz menção aos bons velhos dias que passou com o seu antigo amo, D. João. O aio sempre acreditou no regresso daquele a quem era mais fiel e que sempre tratara como um filho. O sentimento de Telmo durante vinte e um anos encontra-se na canção de Dillaz: “E se ninguém bater à porta / e só baterem as saudades, / afasta aquilo que não é preciso / das tuas preciosidades”.
O tão ansiado regresso consumou-se. Após ter conversado com aquela que outrora fora sua mulher, o romeiro, já no ato III, encontra o seu mais querido amigo, Telmo. É aqui que Telmo sente uma felicidade enorme por ver quem ele mais desejara: “Meu filho!...Oh é o meu filho todo; a voz, o rosto...”. Este reencontro entre ambos imaginava-se mais ternuroso e quente; porém, dadas as mudanças, consequentes de mais de duas décadas de ausência, D. João de Portugal sentiu-se desagradado porque Telmo ganhara uma nova família e uma menina por quem sentia um carinho muito grande: “E a quem já quereis mais que a mim, dize a verdade”.
Apesar dos acontecimentos, nenhum dos dois se esqueceu dos bons momentos vividos há muitos anos e de como isso os unira de forma muito afetuosa, numa espécie de relação pai-filho. Contudo, e mesmo com as presentes divergências, a frase de Dillaz encaixa-se na perfeição nesse preciso momento em que tiveram uma ligeira discussão: “Então se tu escreves o que eu digo, / se segues o meu passo, / então não me espezinhes, / dá-me antes um abraço”.
Na despedida entre ambos fica realçada a fidelidade que Telmo ainda sentia por D. João. A um pedido deste último, responde que não lhe falhará e que “a resolução é nobre e digna de vós”. O acatamento da ordem dada pelo homem disfarçado de romeiro é a certeza da fidelidade de Telmo: “Se eu estou lá na vitória, / eu estou lá no fracasso”.
A frase inicial da canção do músico português é um excelente resumo do momento presenciado pelo velho aio e o seu primeiro amo: “Tu achas que é chegar e aparecer, / então chegas e pronto. / Acabas e recomeças / mas tu não chegas ao ponto”.

Bia [Bom -]

Wiz Khalifa e Charlie Puth dão vida à canção See you again”, lançada em 2015, que consigo aproximar de Frei Luís de Sousa no seu todo.
Esta música remete-nos para inúmeros sentimentos das várias personagens e para o que estas vivem ao longo da história. Como principal personagem deste tema considerei D. João de Portugal, um sofredor — a sua esperança de voltar para os braços de Madalena nunca morrera e, mesmo assim, fora esquecido pela própria mulher.
Os versos “It's been a long day, without you my friend / And I'll tell you all about it when I see you again [Tem sido um longo dia, sem ti meu amigo / Eu conto-te tudo quando te voltar a ver]” fazem-nos imaginar D. João de Portugal a pensar no seu fiel aio e no que lhe tem para contar desde o seu suposto desaparecimento na Batalha de Alcácer Quibir. Sabemos que Telmo lhe era fiel e que sempre acreditara na sua vinda, como se lê no ato III, cena IV: “Telmo (deitando-se-lhe às mãos para lhas beijar)Meu amo, meu senhor... Sois vós? Sois, sois. D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?”.
Ninguém para além de Telmo acreditava no regresso de D. João de Portugal, nem mesmo Madalena, que recebera uma carta onde o cavaleiro reforçava que iria voltar: “Madalena (assustada)Está bom: não entremos com os teus agouros e profecias do costume: são sempre de aterrar... Deixemo-nos de futuros... [...] / Telmo [...] «vivo ou morto, Madalena, hei de ver-vos pelo menos ainda uma vez neste mundo.» — Não era assim que dizia? / Madalena (aterrada)Era.” (ato I, cena II).
O dístico “Those were the days / (…) / Now I see you in a better place [Aqueles foram os dias (…) Agora vejo-te num lugar melhor]” leva-nos à cena V do ato III, onde D. João de Portugal, ao saber que D. Madalena e Manuel de Sousa Coutinho têm uma filha, que são felizes e que acreditam na sua morte, resolve não contar a Madalena quem realmente é e ir-se embora sem levantar qualquer suspeita: “Romeiro — Basta: vai dizer-lhes que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que ninguém mais houve novas dele; (…) E que sossegue, que seja feliz. Telmo, adeus!”.
Já no final, quando se apercebem de que estão a viver um casamento ilegítimo e que aquele alegado romeiro era D. João de Portugal, D. Madalena e Manuel de Sousa Coutinho só acham uma saída: se querem realmente ser perdoados por Deus por este terrível pecado, a única maneira é dedicarem o resto da sua vida somente a Ele, tornando-se assim Freira e Frei. “How could we not talk about family / When family's all that we got? [Como podemos não falar sobre família / Quando família é tudo que temos?]” recorda-nos o momento em que, na cena XI do ato III, Maria entra na igreja durante a consagração dos pais: “Maria (separando-se com eles da outra gente e trazendo-os para a boca da cena) – Esperai: aqui não morre ninguém sem mim. Que quereis fazer? Que cerimónias são estas? Que Deus é esse que está nesse altar, e quer roubar o pai e a mão a sua filha?”
Quando D. João de Portugal se vai embora após Maria ouvir a sua voz e morrer — “Maria (apontando para o romeiro) — É aquela voz, é ele, é ele! Já não é tempo… Minha mãe, meu pai, cobri-me bem estas faces, que morro de vergonha… (…)”, Ato III, Cena XII —, um seu pensamento pode ter sido “So remember me when I'm gone [Então lembra-te de mim quando eu for embora]” pois, apesar de D. Madalena ter outro amor, D. João de Portugal tem o coração entregue ao mesmo amor de há vinte e um anos.

Joana G. [Suf (+)]

Tendo como base a música por mim escolhida, «Não me esqueço de ti», de Mickael Carreira, que pertence ao seu segundo álbum, Entre Nós, do ano de 2007, pode estabelecer-se um elo com a peça, mais propriamente com o ato terceiro, cena V.
O Romeiro passou a ser um elemento importante na peça, uma vez que traz consigo algo que pode abalar muita gente e por que ninguém esperava. Na cena V, o Romeiro manifesta a tristeza que sente sobretudo por ter acontecido o que aconteceu, e por já nada ser como era. Madalena acabara por casar com Manuel de Sousa Coutinho e ambos tiveram uma filha, isto depois da presumida morte de D. João de Portugal. Depois de tanto tempo já nada é igual, até Telmo revela que sente mais amor por Maria, que lhe quer mais do que ao seu antigo amo. O Romeiro acaba por revelar a angústia perante o que está em frente aos seus olhos: a mulher que amara está nos braços de outro. Está angustiado também por ter aparecido tanto tempo depois, e recear que Madalena não o queira ver. No fundo, sente que seria injusto prejudicá-la.
Tal como nos versos da canção “É mais uma noite aqui sozinho, entre a solidão e a minha dor. A sofrer rendido ao meu destino, de não ser amado e ter amor”, o Romeiro acaba por revelar também algum sofrimento, durante todo este tempo em que esteve sozinho, até finalmente conseguir regressar, dando a entender que nunca deixara de amar Madalena, que já não o amava mais (aliás, ainda D. João de Portugal não tinha morrido, já Madalena gostava de Manuel de Sousa Coutinho). Com o verso “Hoje negas nosso amor antigo” podemos relacionar também as recordações que D. João de Portugal guarda de Madalena, relativamente ao amor que sempre sentiu por ela, e a que Madalena acaba por não dar valor. “Eu queria tanto esquecer-te para sempre, poder olhar-te e dizer frente a frente, tenho alguém tenho outra vida, já curei de vez a minha ferida” serve para comparações com o sentimento de Romeiro, pois, apesar do mesmo amar Madalena, considera em alguns momentos que seria melhor manter-se afastado, caracterizando-se como alguém imprudente, tal como evidencia a sua fala na cena V: “Agora é preciso remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro, fui cruel”. Ainda assim, o Romeiro acaba por revelar algum ressentimento relativamente ao que aconteceu durante o tempo em que esteve desaparecido, tal como decorre de uma das suas falas: “Na hora em que ela acreditou na minha morte, nessa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos”.
O carinho que D. João de Portugal sente por Madalena é visível ao longo desta mesma cena. “Eu queria tanto tirar-te do peito e apagar-te do meu pensamento, ser feliz que também mereço, queria tanto só que não me esqueço de ti” recorda-nos o sentimento que o Romeiro revela. Tem vontade de “seguir em frente”, mas, de certo modo, existe algo que o prende, o que sente por Madalena, como está expresso numa das suas falas: “Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele amava… — oh, Telmo, Telmo, com que amor a amava eu!».
D. João de Portugal guarda um amor por Madalena. Tal como vai demonstrando, existe algo que o prende a Madalena. Só que esse sentimento não é mútuo e, só de pensar no regresso do seu antigo marido, Madalena fica aterrorizada, sente-se culpada por ter amado um homem que não era o seu marido, antes de o mesmo morrer. Também acontece na música o homem revelar que ama a mulher e que queria poder esquecê-la por algo que aconteceu e não consegue ignorar o sentimento, mesmo querendo-o muito e sabendo que isso poderá vir a ter consequências negativas.

Helena [Suf (-)]

A música “Dead man Walking [Homem morto a andar]”, dos The script, remete-nos para o caso de D. João de Portugal, que muitos julgavam morto mas que tinha passado todos aqueles anos em cativeiro em Jerusalém.
“Already know you’re moving on [Já sabendo que estás a seguir em frente]” recorda-nos que D. João, quando regressa e fala com Madalena, apresenta-se como um simples conhecido de D. João, e descobre também que Madalena se casara com Manuel de Sousa Coutinho.
“We’re in the same room jus tone million miles away [Estamos na mesma sala mas a um milhão de quilómetros de distância]” é relacionável com a chegada do Romeiro. Ao chegar a sua casa, a casa de D. João de Portugal, afirma ter uma mensagem importante para transmitir a Madalena, que recebe a notícia de que D. João está de facto vivo e cativo em Jerusalém, não sabendo que, na realidade, ele se encontrava à sua frente, apesar de ter o aspeto alterado graças aos difíceis anos que se tinham sucedido.
“Am I dead now, left living with the shame? [Estou agora morto, deixado a viver com a vergonha?]” é comparável com o facto de que D. João de Portugal, quando volta da batalha de Alcácer Quibir, vê que a sua esposa casara novamente, tivera uma filha e que ele não passava de uma assustadora e assombrosa memória, que persegue Madalena e a fazia viver com medo. Em uma das suas falas, Telmo afirma que o seu amo amava Madalena. Este aspeto aumenta a tensão existente com o regresso de D. João. Depois de Madalena sair da sala destroçada com a notícia de que D. João de Portugal ainda está vivo e pode regressar, o Romeiro decide retirar-se e, quando Frei Jorge o questiona “Romeiro, Romeiro, quem és tu?”, a sua resposta, crua e simples, ”Ninguém”, é suficiente para que Frei Jorge perceba que é D. João.
“Already see it, in you face / Already someone, in my place [Já o vejo, na tua cara / Já há alguém, no meu lugar]” — o único pedido que o Romeiro faz é falar com Telmo, e esse pedido é-lhe concedido. Com a conversa com Telmo, D. João descobre que Madalena utilizou todos os recursos possíveis para encontrar o seu marido. D. João toma a decisão de não deixar Madalena saber que ele é o seu marido. Pede a Telmo para dizer que o Romeiro era um vigarista, para que a vida de Madalena pudesse voltar ao normal, porque sabia que tinha destruído a vida de Madalena com a notícia de que estava vivo e não queria ser responsável  pela destruição da vida de Madalena e da sua família.

Laura [Bom -]
Esta canção, “Primavera”, do álbum com o mesmo nome, editado em 2012, cantado pela banda portuguesa The Gift fez-me lembrar a história de Madalena. Esta personagem da peça Frei Luís de Sousa tem dois amores, os seus maridos (um já, alegadamente falecido), mas, no fim acaba por ter de abandonar a vida secular. A letra da canção refere-se a duas pessoas com erros no seu passado, mas que, apesar de tudo, querem a felicidade um do outro.
Enquanto casada com o primeiro marido, D. João de Portugal, Madalena nutria sentimentos por outro homem, Manuel de Sousa Coutinho, com quem viria a casar sete anos após a presumida morte de D. João de Portugal. Apesar deste sofrimento, Madalena foi sempre fiel e respeitava D. João (“Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memória…”). Quando este desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, Madalena, depois de ter chorado a sua morte e ter fornecido recursos para a sua procura, viu uma oportunidade para estar com Manuel (“Meu marido, meu amor, meu Manuel”). Como diz a canção, depois de chorar a perda de alguém, temos de o esquecer e tentar ser feliz (“Hei de te amar, ou então hei de chorar por ti / Mesmo assim, quero ver-te sorrir / E se perder vou tentar esquecer-me de vez / Conto até três / Se quiser ser feliz”).
Como na mesma batalha desapareceu o rei de Portugal, e se esperava que este regressasse um dia, Madalena tinha medo de que o primeiro marido viesse destruir a relação que tinha criado com Manuel. Este sentimento de perseguição devia-se ao facto de pensar noutro homem enquanto estava com D. João, e ter medo de não merecer esse amor (“A sós contigo assim / E sei dos teus erros / Os meus e os teus / Os teus e os meus”). Por este capítulo da sua vida não se ter ainda fechado, Madalena era bastante insegura (“Oh perdoa-me, perdoa-me, não me sai esta ideia da cabeça… que vou achar ali a sombra despeitosa de D. João, que me está ameaçando com uma espada de dois gumes… que a atravessa no meio de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre…”). Quando descobriu que D. João estava vivo, esta insegurança aumentou. Apesar de ainda ter tentado o contrário pondo a hipótese de se tratar de uma hipótese sem fundamento, esta descoberta fez com que a sua família se destruísse. O ingresso de Manuel na vida religiosa e a morte da sua filha Maria despedaçaram o coração de Madalena (“Misericórdia, meu Deus!”).
Apesar de todos terem cometido erros e de saberem os pecados uns dos outros, depois de tantas novidades e tragédias, Madalena e Manuel não conseguiram que o seu amor fosse suficiente para continuarem juntos.

Ana S. [Suf +]

Após uma longa busca por uma música que se enquadrasse na turbulenta história da peça Frei Luís de Sousa, acabei por encontrar uma canção da dupla londrina Oh Wonder. Dentre todas as incríveis músicas que compõem o seu primeiro e único álbum lançado em 2014, elegi “All we do”. Ao ouvir esta canção, encontro diversos versos que, sem dúvida, se adequam a diversas situações e até mesmo a diferentes personagens que constituem a peça.
No início da peça, mais precisamente na cena I do primeiro ato, Madalena mostra-se angustiada, infeliz, comparando até a sua infelicidade com a de Inês, personagem do famoso episódio de Pedro e Inês. Madalena parece “não conseguir encontrar um paraíso na terra” (“Can’t find Paradise on the ground”), acreditando que não consegue aproveitar o momento nem ser feliz (“este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade”). Este verso não só nos remete para o início da peça como também para a mesma em geral, dado que Madalena vive num constante medo de que o seu marido, D. João de Portugal, volte, dado que, embora o mesmo tenha sido dado como desaparecido na batalha de Alcácer Quibir, a sua sobrevivência ainda não se descartou. D. Madalena mantém um casamento com Manuel de Sousa e tem com o mesmo uma filha, que alimenta ainda mais o medo que tem de que o seu primeiro marido esteja vivo.
Manuel de Sousa, após regressar de Lisboa, para que os governantes, que iriam chegar, se não instalassem em sua casa, leva a família para a antiga casa de Madalena, na qual a mesma viveu com o seu primeiro marido. Este momento comparo-o com o verso “tudo o que nós fazemos é escondermo-nos” (“All we do is hide away”). Com o regresso à casa onde partilhava a sua vida com D. João de Portugal, Madalena encara o enorme retrato do seu marido numa das paredes de uma sala onde se vão passar diversas cenas da peça. O retrato chamou à atenção de Maria, a filha de Madalena e Manuel de Sousa, que pergunta quem está retratado a Telmo (“De quem é este retrato aqui, Telmo?”). Nem Madalena nem o próprio Telmo pretendem dar-lhe a conhecer que, na verdade, o retrato que se encontra na grande parede, juntamente com outros, era o do ex-marido da mãe, por isso decidem “jogar pelo seguro” (“play it safe”) e omitir tal facto a Maria.
“Eu tenho andado de cabeça para baixo” (“I’ve been upside down”) é um verso que se encaixa perfeitamente no momento que Madalena passa na casa do ex-marido e em toda a sua vida desde que casou com Manuel de Sousa.

Joana M. [Suf +]

A canção “Alone”, da cantora Selah Sue, retrata com bastante coerência a situação em que se encontra D. João de Portugal na peça Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett.
D. João de Portugal foi o primeiro marido de D. Madalena de Vilhena, e participou com D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, na qual desapareceu. Tal como aconteceu com D. Sebastião, a sua morte nunca foi provada. Em Frei Luís de Sousa, no entanto, é uma espécie de fantasma que arrastará, fatalmente, para um destino trágico, todas as outras personagens.
Quando Madalena se refere ao "senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória" e Telmo, em aparte, lança a dúvida "Terá…", manifesta, assim, a crença de que ainda esteja vivo o nobre cavaleiro, que vai lentamente adquirindo contornos até se tornar na figura do Romeiro, que se identifica como «Ninguém».
É, portanto, no regresso de D. João de Portugal após vinte e um anos de ausência que a música de Selah Sue se enquadra na perfeição. Quando o “Romeiro” entra em cena, dizendo que tem um recado para Madalena, Jorge e Madalena dão-lhe as boas vindas e tentam pô-lo à vontade, falando da vida que levara aquele peregrino durante aqueles anos. O romeiro afirmava não ter família nem amigos, pois os que tivera no passado contaram com a sua morte (“Parentes!... Os mais chegados, os que eu me importava achar… contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ela; hão de jurar que me não conhecem”). Toda esta solidão e abandono sentidos por D. João após este seu regresso a casa o podemos associar a um verso da música, “Back Home / But on the ground [De volta a casa / Mas no chão]”. De imediato, se recordam alguns versos da primeira estrofe e do refrão da música, tal como “Don’t you see I´m alone without you [Tu não vês que eu estou sozinho sem ti]” ou mesmo “The day you abandoned me / Save me you remember me to start [No dia que tu me abandonaste / Salve-me se lembra de mim para começar]”, na primeira estrofe. No refrão, também podemos citar o “Cause I’m alone [Porque eu estou sozinho]”. No entanto, ele trazia uma mensagem de D. João de Portugal (“Ide a D. Madalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito lhe quis… aqui está vivo… por seu mal… e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas, de há vinte anos que o trouxeram cativo”), mensagem que deixou Madalena bastante abalada e Jorge desconfiado sobre quem seria, realmente, aquele Romeiro.
Quando o Romeiro reencontra Telmo (o velho criado, aio de D. João de Portugal, definido pela lealdade e fidelidade, que não quer magoar nem pretende a desgraça da família de D. Madalena e Manuel, mas, como verdadeiro crente no mito sebastianista, acredita que D. João de Portugal há de regressar), já no ato III, o velho aio apercebe-se de que está perante o seu senhor e sente uma enorme felicidade (“Meu filho!...Oh é o meu filho todo; a voz, o rosto...”). D. João de Portugal sabe que Telmo fora o único que não acreditara que a causa do seu desaparecimento fora a sua morte. Madalena sempre contrariou Telmo em tal pensamento e preferiu acreditar na sua morte embora o tivesse procurado durante sete anos (“É verdade que por toda a parte me procuraram, que por toda a parte… ela mandou mensageiros, dinheiro?”). A verdade é que o Romeiro sentia-se esquecido, e estes versos de Selah Sue ligam-se na perfeição a esse sentimento: “I hope you remembre me at night / Love has forsaken me / The day you abandoned me [Eu espero que tu te lembres de mim à noite / Amor que me desamparou / No dia que tu me abandonaste]”.
Contudo, ainda na cena V, D. João pede a Telmo para que ajude a evitar a desgraça da família, ordena-lhe que diga que o romeiro é um impostor.
Na Cena VI, existe uma última "ilusão" de D. João que, ouvindo Madalena chamar de fora pelo seu marido, pensou que aquele se dirigia a si: “Before the end / Did the door start close / Once we began / But did you let go [Antes do final / Será que a porta se começa a fechar / Uma vez que começamos / Mas que tu me deixaste ir]”. Estes versos de Selah Sue apontam para um pingo de esperança por parte do Romeiro, pois antes da partida do Romeiro (antes do final, como a cantora diz), se aquelas palavras de Madalena fossem para D. João, a porta a que Selah Sue se refere poderia não se fechar mas abrir-se e dar origem a uma nova história. No entanto, a verdade é que Madalena se referia a Manuel e não a D. João.
“Alone” aplica-se aos sentimentos de D. João de Portugal, que, após a Batalha de Alcácer Quibir, é dado como morto e, portanto, esquecido por Madalena, que o considera morto e forma uma nova família com Manuel de Sousa. D. João sente-se só e, quando se apercebe de que Madalena não o reconhece e apenas vive para Manuel de Sousa, desiste da ideia de revelar a sua pessoa. A música termina com os versos “Cause I’m alone / Without you [Porque eu estou sozinho / Sem ti]” que poderiam remeter para o sentimento do pobre Romeiro.

Duarte [Suf +/Bom-]

A relação existente entre a música escolhida, “Mentira”, de João Pedro Pais, e o enredo de Frei Luís de Sousa é a de que, a par do título da canção, também na obra que estudámos era falso o paradeiro de D. João de Portugal, o que, como consequência, remetia para o precipitado casamento da personagem feminina principal, Madalena, que, ao contrário do que pensava, não era viúva. Existem ainda mais comparações que conseguimos estabelecer a partir da música e da história…
Tenhamos em conta os versos “Dá-me vontade de te ter ao meu lado, vendo-te a olhar para mim / Como um pássaro livre que voa sem fim, porque é que a vida nos trama quando alguém se ama? / Recordo-me de ti e imagino porquê a tua cara a flutuar, porque é que a vida nos fascina? / Acreditar que no amor não se sente a dor, mas é Mentira! Mentira! Mentira! Mentiraaaa!”.
Todas estas frases nos ligam à personagem D. João de Portugal e aos seus sentimentos por Madalena. Conseguimos entender que D. João, com a infelicidade de em tantos anos não conseguir regressar ao seu país e por ter sido considerado como morto (apenas o seu fiel aio Telmo acreditava no contrário), acaba por ser “tramado” pelo amor e a mentira do seu desaparecimento “tramar” o seu casamento com o passar do tempo só aumentava as saudades e ânsia por ver a sua mulher. Entendo Frei Luís de Sousa enquanto portador de uma mensagem intemporal através da qual o amor é um elemento destruidor da felicidade humana e causador da destruição do Homem, o que se constata, por exemplo, no Romeu e Julieta, de Shakespeare, ou no episódio de Inês de Castro, de Os Lusíadas: “Tu, só tu, puro Amor, com força crua / Que os corações humanos tanto obriga, / Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga”; “Se dizem, fero Amor, que a sede tua, / Nem com lágrimas tristes se mitiga, / É porque queres, áspero e tirano, / Tuas aras banhar em sangue humano.”
Também em Frei Luís de Sousa o amor acaba por desgraçar o protagonista, obrigando-o a partir (ou, como João Pedro Pais, escreveu: “ter de partir e não poder sorrir”) e a escolher ficar com a recordação do que viveu, optando por deixar Madalena ser feliz na ignorância (ou a viver uma mentira formal, o seu casamento bígamo, embora feliz).

Luísa [Suf (+)]
A canção que escolhi para integrar neste comentário-análise foi “Mentira” de João Pedro Pais, que está incluída no segundo álbum do cantor, Outra Vez, de 1999. Escolhi esta música pois nela podem agregar-se diversos sentimentos, de diferentes personagens.
Podemos começar pelo que sentiu D. João de Portugal quando voltou: “Sei que estou apaixonado / Mas não posso ficar assim”. Quando voltou, D. João ainda estava completamente apaixonado por Madalena, mas tinha também perfeita consciência de que a mesma tinha agora uma família, e que não poderia continuar ali a atormentá-la (“E que sossegue, que seja feliz. Telmo, adeus!“). Logo depois deste verso, encontramos um sentimento que contrasta com o de D. João de Portugal, o de Madalena, que afirma a sua tristeza (“Porque é que a vida nos trama / Quando alguém se ama?”) pois Madalena, mesmo enquanto o antigo esposo era vivo, já tinha o seu coração a bater por outrem, batia por Manuel de Sousa (“Este amor, que hoje está santificado e bendito no céu, porque Manuel de Sousa é meu marido, começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi (…) D. João de Portugal era ainda vivo! O pecado estava-me no coração (…) mas dentro da alma eu já não tinha outra imagem senão a do amante”).
Na letra escrita por João Pedro Pais, lemos os versos “Ter de partir / E não poder sorrir”, que podemos aplicar a D. João, que partiu para a Batalha de Alcácer Quibir, não podendo assim ficar com a dama mais honrada de Portugal e a que ele tanto amava. Partindo para a batalha, D. João não ficou com Dona Madalena, e perdeu assim tudo o que ele amava na vida.
Encontramos também na letra alguns versos que nos servem para fazermos alusão à pequena e frágil Maria: ”Porque é que a vida nos fascina? / Tantas vezes nos domina?”. Maria era uma menina muito perspicaz, inteligente e curiosa, algo que assustava tanto a mãe como o seu tio, Frei Jorge (“Sabeis que mais? Tenho medo desta criança. – Também eu “). Porém, toda esta perspicácia e ânsia de viver não foram suficientes para salvar Maria, que já havia sido dominada pela doença: uma terrível tuberculose ocupara todo o corpo de Maria e não lhe deixou muito tempo de vida. Pode mesmo dizer-se que Maria passou os últimos dos seus dias a “arder em curiosidade” (“Que febre que ela tem hoje, meu Deus! Queimam-lhe as mãos… e aquelas rosetas nas faces…Se o perceberá a pobre mãe”).
Quanto aos versos “Acreditar que no amor / Não se sente a dor / Mas é mentira!”, pode aplicar-se tanto a Madalena como a D. João de Portugal, e ainda a Manuel de Sousa Coutinho, já que todos no final acabam desolados e com as vidas trocadas: Madalena vê-se prestes a cair na desonra, e a desonrar a sua filha, acaba por a perder e perder o seu amado Manuel de Sousa; D.João regressa a casa, e o que encontra são apenas peças soltas do que deixara em tempos (é verdade que ainda tem a sua casa, mas ocupada por Madalena e o seu amado; tem ainda o seu velho aio mas que agora quer mais a Maria do que lhe quer a ele; e reencontra Madalena, mas agora nos braços de outro); por fim, Manuel de Sousa Coutinho também perdeu a sua amada esposa, a sua querida e, depois de perder tudo isso ingressa na vida religiosa, que, no entanto, lhe irá permitir ser reconhecido pela sua obra literária.

Gonçalo [Suf-/Insuf+]
Escolher uma música que se adequasse ao texto ou a qualquer ato de Frei Luís de Sousa é difícil, mas, ao ouvir “Amor Electro-Máquina”, pude encontrar algo que identificasse com o enredo da peça, não com todo mas com uma parte do drama. Na música, os versos “Que pena é ver-te assim / Já sem saberes de ti.“ posso identificá-los com o ato segundo, cena I, quando Maria conversa com Telmo, na sala dos retratos, e se diz que D. Madalena está triste, sem vontade de viver, e, como é dito no verso da música, sem saber quem é, devido a ter saído da sua antiga casa e agora residir na casa de seu marido falecido (alegadamente), D. João de Portugal.
O verso em seguida — “É de pedir aos céus, A mim, a ti e a Deus“ — identifica-se também com o mesmo ato e com a mesma cena e com os seguintes (antes da entrada do romeiro), quando se sabe que Frei Jorge esteve a falar com D.Madalena para a acalmar e tentar que ela não estivesse tão deprimida e triste pela volta à sua antiga casa. Sendo a obra de índole trágica, não só a música se relaciona com ela em geral, como há partes que se identificam especialmente com a canção.
Também no videoclip se percebe que há uma certa essência de épocas passadas, apesar de o contexto ser o atual.

Joana Si. [Suf]
A música da Christina Perri, “Jar of Hearts”, caracteriza bem a peça Frei Luís de Sousa através da forma como conta a história de um homem que parte o coração da rapariga e lhe rouba o coração desaparecendo logo a seguir, mas depois espera tê-la de volta.
A partir do momento em que D. João de Portugal volta, Madalena vive no terror por ter casado de novo e o seu aparecimento poder abrir feridas que não estavam seladas – “Que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo. Este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor.” Este excerto da peça representa o medo e o terror que a ausência de D. João e o seu reaparecimento lhe provocaram. Já na música esse medo é representado através dos seguintes versos – “And it took so long just to feel alright / And now you're back / You don't get to get me back [E demorou tanto tempo só para me sentir bem / E agora voltaste / Mas não me vais ter de volta]”.
Telmo mantém a esperança de que o seu primeiro amo chegue, mas Madalena sofre com a possibilidade de o seu passado afetar o seu presente por isso tenta que este não traga o assunto à tona. Com a chegada de João de Portugal, disfarçado de Romeiro, todos os medos de Madalena se tornam realidade e Telmo fica feliz, mas preocupado com Madalena e, sobretudo, Maria, e tentará esconder a identidade de João, a pedido deste.
Existe uma cena particular na peça em que Madalena chama por Manuel, seu esposo, e o Romeiro pensa que chama por ela pronto a tê-la nos braços – “MADALENA - Esposo, esposo, abri-me, por quem sois! Bem sei que aqui estais! Abri! / ROMEIRO - É ela que me chama! Santo Deus! Madalena que chama por mim. / TELMO - Por vós? /  ROMEIRO - Pois por quem? Não lhe ouves gritar: «Esposo, esposo?»” – e a música representa bem este momento e desejo do amado de voltar para os braços da sua antiga amada – “I know I can't take one more step towards you / 'Cause all that's waiting is regret / Don't you know I'm not your ghost anymore / You lost the love I loved the most / I learned to live half alive / And now you want me one more time [Eu seu que não posso dar mais um passo na tua direção / Por o que me espera é arrependimento / Não sabes que já não sou o teu fantasma]”.
Escolhi esta música como âncora para a análise da peça porque, a meu ver, neste drama romântico a parte mais presente é a dor que uma pessoa pode trazer com a sua simples presença da canção pinta um cenário semelhante ao o da peça: um amor antes correspondido nunca morre para um dos lados.

Hugo [Suf-/Insuf+]

A obra Frei Luís de Sousa aproxima-se da tragédia clássica. A história desenrola-se à volta duma mulher que se crê viúva e se vê confrontada com os fantasmas do passado, deparando-se com situações bastante embaraçosas. Esta mulher tal como o sujeito poético da canção interpretada por Adele, sofre por amor. Ambas as mulheres se mostram desesperadas.
Nesta parte específica da ação, podemos observar Madalena, que, a seus olhos, perdeu tudo o que valorava na vida. Primeiramente, deu-se a tragédia do reaparecimento de seu antigo marido, D. João de Portugal, que tinha sido dado como morto, o que resultará na separação do seu actual marido, Manuel de Sousa, deixando-a como «viúva» pela segunda vez (“Pela derradeira vez neste mundo, querida. (Vai para a abraçar e recua.) Adeus, adeus!”). Depois, abate-se sobre ela outra tragédia, o estado crítico da filha, Maria, que mais tarde resultará na sua morte (“Oh, a minha filha, a minha filha. Também essa vos dou, meu Deus. E agora, que mais quereis de mim, Senhor?”). Em suma, temos uma ínfima parte do sofrimento duma mulher que perde tudo.
A canção que escolhi fala-nos duma mulher que, sem aviso prévio, perdeu o seu amado, tal como Madalena. Tanto a peça como a canção se prendem ao tema da tragédia e da perda dum ou mais entes queridos, sempre enaltecidos, de modo a fazer passar a mensagem e apelar à emoção do recetor. A estrofe em seguida ilustra-nos perfeitamente a situação passada por Madalena e podia até ter sido proferida por ela num dos seus desabafos: “When will i see you again? [Quando irei ver-te de novo?] / You left with no goodbye [Partiste sem dizer adeus] / Not a single word was said, [Nem uma palavra foi dita] No final kiss to seal any sins. [Nem um beijo final para selar os pecados]”.
O tema abordado em Frei Luís de Sousa é muito comum no Romantismo. A tragédia é algo que prende bastante o leitor e é facilmente explorável de forma a “mexer” com os sentimentos, de quem lê ou vê a peça. Madalena e o sujeito poético da canção de Adele sentem uma dor quase inexplicável e, de diferentes formas, expressam-na bastante efusivamente.

Madalena [Suf+/Bom-]
A música «Breakeven», da banda The Script, contém vários versos que poderiam ser comparados com a peça de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa. Toda a canção poderia ser relatada pelo romeiro, como se há de dar a conhecer no regresso D. João de Portugal, sobre o que lhe acontecera e o que lhe está a acontecer.
“I'm still alive but I'm barely breathing” (“Continuo vivo mas mal respiro”) poderia D. João de Portugal afirmar quando chega a Almada para cumprir o que prometera a Madalena, que ,“vivo ou morto”, ainda se haviam de encontrar.
“Her best days will be some of my worst” (“Os melhores dias dela serão dos meus piores”), continua o vocalista, como que a dizer que Madalena, agora com o seu marido, Manuel de Sousa Coutinho, e com a filha, Maria, terá melhores dias adiante, ao contrário de D. João. “She finally met a man that's gonna put her first” (“Ela finalmente conheceu um homem que vai colocá-la em primeiro lugar”) continuam então os versos.
Ao longo da peça podemos perceber que D. João tinha apenas duas grandes paixões na vida sem as quais não poderia viver, a guerra e Madalena: “e aquela mão que descansa na espada, como quem não tem outro arrimo, nem outro amor nesta vida”; “Pois tinha, oh! se tinha”.
Os sentimentos de D. João de Portugal poderiam então ser descritos nos restantes trechos da música, como em “What am I supposed to do when the best part of me was always you?” (“O que hei eu de fazer quando a melhor parte de mim sempre foste tu?”). Esta parte, do refrão, parece dirigir-se a Madalena, que apesar de ter esperado por D. João sete anos, voltara a casar, pensando que estaria livre de pecado, apesar de que é referido na peça que D. Madalena sempre pecou em pensamento desde o momento em que viu Manuel. Como está na peça: “com que amor a amava eu!”.
“I'm falling to pieces” (“Estou a desmoronar-me aos bocados”) descreveria o estado de espírito de D. João que, desde que fora dado como morto, tivera uma vida dura. E agora, “ressuscitado”, mais dura ainda lhe seria por saber que o seu amor nunca fora correspondido: “she moved on while I'm still grieving” (“ela seguiu em frente enquanto eu continuo magoado”), mostra o sentimento de traição sentido por D. João ao saber que o amor da sua vida, a mulher da sua vida, havia casado de novo e, mais tarde, dado à luz uma filha. “you left me with no love, and no love to my name” (“Deixaste-me sem amor e sem amor ao meu nome”) é mais um dos muitos versos que nos transportaria para o sentimento de tristeza e de abandono sentido pelo romeiro (D. João de Portugal) e que se encontra intimamente relacionado com uma das suas falas, em Frei Luís de Sousa, “Na hora em que ela acreditou na minha morte, nessa hora morri.”. Agora D. João de Portugal teria de seguir em frente, como Madalena fizera: “De mim já não há senão esse nome, ainda honrado”.

Miguel [Suf-]

Frei Luís de Sousa é uma obra de cariz português. Muitas coisas podem vir-nos à cabeça quando pensamos em cultura portuguesa: Camões, Pessoa, mais de mil anos de história, tremoços ou o “Benfas”. No entanto, nada nos caracteriza melhor do que a música pimba.
Ao deparar-me com a parte da peça em que D. João de Portugal volta à sua casa, não poderia deixar de me vir à cabeça a música cuja autoria é de Mónica Sintra, “Na minha cama com ela”, embora prefira a adaptação de Bruno Nogueira.
Ao pormos as duas histórias destes dois grandes escritores nacionais lado a lado, haveria apenas uma alteração a fazer, trocar no título da música o “ela” por “ele” (afinal tais modernices começaram a aparecer depois de o vocalista dos “Queen” ter aderido ao movimento).
Ambas as histórias assentam numa traição. Na obra publicada há cento e setenta e dois, podemos ver D. João de Portugal como traído, “encornado” para os mais grosseiros. Este, depois de vinte e um anos perdido na batalha de Alcácer Quibir, pretende voltar para os braços da sua amada, D. Madalena. No entanto, ao chegar a casa sem avisar (obviamente, podemos relacionar com os versos de Mónica Sintra “Cheguei sem avisar / Mais cedo a casa nesse dia”), vê que Madalena não estava sozinha. Na verdade, Madalena estava perdida nos braços dele (Manuel de Sousa Coutinho), e nessa casa possuía também o retrato de D. João de Portugal, já antes comentado pela doente filha e por Telmo (“Perdido nos braços dela / Mesmo em frente ao meu retrato).
Porém, enquanto o sujeito poético de “Na minha cama com ela” teve o prazer de verificar o seu marido a satisfazer uma estranha, o Romeiro teve de se contentar em ver sua mulher e um estranho a tentarem resolver a tuberculose da filha.
Tanto a história escrita e cantada por Mónica Sintra como a obra escrita por Almeida Garret retratam um episódio dramático, a descoberta da substituição do parceiro por um outro indivíduo, se bem que no poema de Mónica o sujeito poético se sujeite apenas a um sentimento de raiva e tristeza: “Tenho o desgosto tatuado; Eternamente desde então; E cada vez esta mais amargo; O dissabor dessa traição.”. Já na obra romântica os danos de tal relação ilegítima entre Madalena e Manuel de Sousa Coutinho foram um pouco mais graves, havendo uma morte confirmada: Maria morre de vergonha por ser fruto de tal laço matrimonial.

Francisco [Suficiente +/Bom-]

A canção dos Xutos & Pontapés, “Homem do leme”, aplica-se às cenas V e VI do terceiro ato de Frei Luís de Sousa, com destaque para as personagens Madalena, Telmo e Romeiro.
Os versos «Tentaram prendê-lo / impor-lhe uma fé / mas vogando a bondade / rompendo a saudade» podem aplicar-se à crença de Telmo, pois nunca duvidou da sobrevivência do seu amo na batalha de Alcácer Quibir, D. João de Portugal. A sua desconfiança é confirmada na cena V do terceiro ato, quando está em conversa com o Romeiro e acaba por descobrir que, diante si, se encontra o seu amo («Meu amo, meu senhor… sois vós? Sois. D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?»). Durante o diálogo com D. João de Portugal, Telmo repara no seu aspeto desleixado, que D. João justifica com a sua experiência vivida nos últimos vinte anos: «São vinte anos de cativeiro e miséria, de saudades, de ânsias que por aqui passaram». Esta citação pode relacionar-se com os versos «Vai quem já nada teme / vai o homem do leme», que estão presentes na canção.
Quando D. João regressa a casa, é avisado por Telmo do novo marido de Madalena, Manuel Coutinho, e da sua filha, chamada Maria («E têm um filho?»). Ele fica surpreendido com as notícias, tomando, assim, a decisão de ir embora, arrependido de ter voltado e indignado com a atitude de Madalena («D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele amava…»), apesar do grande esforço de Telmo para o impedir. Esta atitude por parte de D. João poderia associar-se aos versos «No fundo do tempo / foge o futuro / é tarde demais», onde também o autor da canção descreve um sentimento de impotência perante a situação vivida, compreendendo que é tarde demais para mudar seja o que for.
A cena VI do terceiro ato apresenta o momento em que D. João de Portugal volta a sonhar com o seu casamento, pensando que Madalena o reconhecera e o chamara em tremendo pranto: «Pois por quem?... Não lhe ouves gritar: “esposo, esposo?». Madalena acaba por desfazer o engano («Meu marido, meu amo, meu Manuel!»), deixando D. João decidido a ir-se embora. Os versos «E uma vontade de ir / correr o mundo e partir / a vida é sempre a perder» relacionam-se com a parte final da cena, onde D. João demonstra um sentimento de raiva por si próprio por ter acreditado que as palavras de Madalena pudessem ser dirigidas para si, o que é comprovado na fala «Ah! E eu tão cego que já tomava para mim! Céu e inferno! Abra-se esta porta… Não: o que é dito, é dito».

Magda [Suficiente]

A canção «Porto sentido», de Rui Veloso, pertencente ao álbum Rui Veloso, onde é a oitava faixa, lançado em 1987, pode, de várias maneiras, relacionar-se com algumas personagens da obra de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa.
Logo no início, a passagem "Quem vem e atravessa o rio" pode ser relacionada com a localização da casa de Manuel de Sousa Coutinho e de Madalena («No fundo, duas grandes janelas rasgadas, dando para um eirado que olha sobre o Tejo e donde se vê toda Lisboa»), algures do outro lado do rio Tejo — isto relativamente a quem se encontra em Lisboa, é claro. A parte da letra da canção "Vê um velho casario / Que se estende ate ao mar" poderia reportar-se, também, à habitação da família de Manuel de Sousa Coutinho.
Na segunda quadra da letra da canção dir-se-ia que se faz uma referência às viagens de Manuel de Sousa a Lisboa ("Quem te vê ao vir da ponte / És cascata, são-joanina / Erigida sobre o monte / No meio da neblina"), também às emoções demonstradas pelo personagem em todos os seus regressos e à ansiedade e felicidade sentidas por Manuel ao reencontrar sua mulher, Madalena, e sua filha, a pequena Maria («Madalena! Minha querida filha, minha Maria!»). Enquanto que a segunda quadra se relaciona, maioritariamente, com Manuel Coutinho, a quarta quadra da canção de Rui Veloso podia retratar Madalena: "E esse teu ar grave e sério / Num rosto de cantaria" estaria relacionado com o ar sempre pesado e preocupado de Madalena, devido não só ao tormento causado pelo amor antigo («Depois que fiquei só, depois daquela funesta jornada de África que me deixou viúva, órfã e sem ninguém...») como também à situação de saúde de sua filha Maria (« É a minha única filha; não tenho... nunca tivemos outra... e, além de tudo o mais, bem vês que não é uma criança... muito... muito forte»).
A quadra "Ver-te assim abandonada / Nesse timbre pardacento / Nesse teu jeito fechado / De quem mói um sentimento", mais uma vez, pode associar-se à constante angústia sentida pela viúva de Dom João de Portugal, demonstrada, de forma mais acentuada, com o momento em que a família é obrigada a mudar-se para a casa de Dom João (« Mas oh! Esposo da minha alma... para aquela casa não, não me leves para aquela casa!»).
Por fim, a última quadra parece dedicada inteiramente ao regresso do Romeiro — Dom João de Portugal — e à dor que causa em Madalena este regresso tão tardio ("E é sempre a primeira vez / Em cada regresso a casa / Rever-te nessa altivez / De milhafre ferido na asa") e à esperança de João de Portugal em rever Madalena, e de que, assim, pudesse voltar a viver o seu antigo amor (« Pois por quem?... não lhe ouves gritar:" esposo, esposo?"»), acabando, porém, por cair em angústia e apercebendo-se de que deve deixar Madalena e a sua família viverem em paz, embora lhe fosse doloroso.

Mariana [Suf+/Bom-]

A canção dos OneRepublic “Apologize [pedir desculpa]” pode ser relacionada com a obra de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa. O refrão — “It's too late to apologize / It's too late / I said it's too late to apologize / It's too late [É tarde demais para pedir desculpas / é tarde demais / Eu disse que é tarde para pedir desculpas / é tarde demais]” — pode ser relacionado com o final da obra.
No final do terceiro ato, D. João de Portugal fica arrependido (“Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel.”) — pois por Madalena “I'd take another chance, take a fall, take a shot for you / And I need you like a heart needs a beat, but it's nothing new [Eu arriscar-me-ia de novo, cairia, levaria um tiro por ti / E preciso de ti como um coração precisa bater, mas isso não é nenhuma novidade] — por vir a destruir a família que D. Madalena havia construído, pedindo a Telmo que negasse o que tinha dito enquanto Romeiro, ordenando-lhe que dissesse a Madalena que “falaste com o romeiro, que o examinaste, que o convenceste de falso e de impostor…” e pedindo também que atribuísse a autoria daquele acontecimento aos inimigos de D. Manuel.
Quando já se encontram D. Manuel, Madalena e Maria na igreja, prestes a sofrer o destino fatal que os aguardava, após Maria implorar aos pais que desistissem da entrada na vida religiosa, esta, devido à sua apurada audição proveniente da sua doença, a tuberculose, ouve a voz de D. João que incita Telmo (“salva-os, que ainda podes”), porém não ouve as palavras que por esta são proferidas, acabando por morrer “de vergonha”. Este desfecho, tal como a crença de D. João em que pode salvar a família de Madalena da fatalidade que a espera, pode ser relacionado com o refrão (“It's too late to apologize [É tarde demais para pedir desculpas]” pois foi “too late [demasiado tarde]” para conseguir impedir a morte de Maria e a entrada para a vida religiosa de D. Manuel e Madalena.
Desde o início são-nos dados indícios do final trágico, começando logo pelo início da obra, no ato primeiro, cena I, as palavras repetidas por Madalena (“«Naquele engano d’alma ledo e cego, / que a fortuna não deixa durar muito…»”). Este trecho de Os Lusíadas, do episódio de Inês de Castro, remete o leitor para a semelhança com o final da peça, visto que ambos os enredos (o da história de Pedro e Inês e o da peça de Garrett) possuem um final trágico para o casal. Os primeiros versos da canção podem ser facilmente relacionados com os sentimentos que Madalena experiencia ao longo da peça (“I'm holding on your rope, got me ten feet off the ground [Eu estou a segurar na tua corda, deixou-me a 10 pés do chão]”, metáfora para o que Madalena sente ao saber a verdade, pois encontra-se numa situação com uma saída difícil, sendo que “And I'm hearing what you say, but I just can't make a sound [E estou a ouvir o que me dizes, mas eu simplesmente não consigo emitir nenhum som]” pode ser associado à sua perplexidade ao saber que o antigo marido estava vivo. Por fim, “You tell me that you need me then you go and cut me down [Tu dizes que precisas de mim, então tu vens e derrubas-me]” remete-nos para os sentimentos de D. João por Madalena e para as consequências do ato de se dar a conhecer.

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