Sunday, August 27, 2017

Livros



Obras para leitura (10.º ano)
Esta lista está também no manual, na p. 18, mas aí arrumada apenas segundo origem dos autores — portugueses, de outros países de língua portuguesa (brasileiros, caboverdianos, angolanos, moçambicanos), universais.
Segundo o programa, cada aluno terá de ler pelo menos uma destas obras. Porém, espero que, ao longo do ano, se leia até mais do que um livro, ainda que, além de uma obra obrigatoriamente desta lista, nos socorramos depois de outros livros.
Para poderem escolher, copiei a capa (da edição que tenho à mão, que pode não ser das mais atuais; não julguem, portanto, que cada livro tem de ter a capa que lhes surgirá aqui). Reproduzi também as primeiras linhas do livro e fiz um breve comentário. Ainda antes de tudo, na tabela que se segue, dei uma nota (escala de 1-5) segundo: 1) probabilidade de os alunos não considerarem o livro «secante» (as obras mais pontuadas serão as menos secantes; mas serei otimista — muitos achá-las-iam quase todas secantíssimas); 2) apreciação minha da qualidade do livro, utilidade que a sua leitura pode ter, etc.
Descartei, para já, as obras do modo dramático (teatro) ou do modo lírico (poesia não narrativa), porque gostava de as integrar de outra maneira, posteriormente.

Lista das obras (a seguir); no final, comentário meu, obra a obra. Sem algarismo à frente, as que são de poesia não narrativa e as de teatro — para já, não devem optar por essas. Quando à numeração das colunas, codifica o serem livros legíveis ou não (os talvez menos aborrecidos levam a melhor nota) e o serem importantes em termos literários (os mais importantes levam a melhor nota). Por exemplo, Capitães da Areia é obra que não é das mais difíceis de ler (por isso, 4), mas tem talvez a desvantagem de não ser um livro dos mais marcantes em termos da história da literatura (por isso, um 3). Talvez devam olhar sobretudo para a primeira coluna (a da esquerda).

AA.VV., Antologia do Cancioneiro Geral (poemas escolhidos)
Alves, Adalberto, O Meu Coração é Árabe (poemas escolhidos)
Amado, Jorge, Capitães da Areia
4
3
Anónimo, Lazarilho de Tormes
3
4
Andresen, Sophia de Mello Breyner, Navegações
Brandão, Raul, As Ilhas Desconhecidas
2
4
Calvino, Italo, As Cidades Invisíveis
2
4
Carey, Peter, O Japão é um Lugar Estranho
4
4
Castro, Ferreira de, A Selva
3
4
Cervantes, Miguel, D. Quixote de la Mancha (excertos escolhidos)
3
5
Chatwin, Bruce, Na Patagónia
3-4
4
Dante Alighieri, A Divina Comédia (excertos escolhidos)
1
5
Defoe, Daniel, Robinson Crusoé
4
5
Dinis, Júlio, Serões da Província
3
4
Eco, Umberto, O Nome da Rosa
4
3
Énard, Mathias, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes
4
4
Faria, Almeida, O Murmúrio do Mundo: A Índia Revisitada
4
3
Ferreira, António, Castro
Gedeão, António, Poesia Completa (poemas escolhidos)
Homero, Odisseia (excertos escolhidos)
2-4
5
Lispector, Clarice, Contos
3-4
4
Lopes, Baltazar, Chiquinho
4
4
Maalouf, Amin, As Cruzadas Vistas pelos Árabes
?
4
Magris, Claudio, Danúbio
2
4
Marco Polo, Viagens (excertos escolhidos)
4-3
3
Meireles, Cecília, Antologia Poética (poemas escolhidos)
Moraes, Vinicius de, Antologia Poética (poemas escolhidos)
Nemésio, Vitorino, Vida e Obra do Infante D. Henrique 3
4
4
Ondjaki, Os da Minha Rua
4
4
Pepetela, Parábola do Cágado Velho
3
4
Pérez-Reverte, Arturo, A Tábua de Flandres 4
4
3
Petrarca, Rimas (poemas escolhidos)
Poe, Edgar Allan, Contos Fantásticos
4
5
Rui, Manuel, Quem Me Dera Ser Onda
4
3
Scott, Walter, Ivanhoe
3
4
Shakespeare, William, A Tempestade
Swift, Jonathan, As Viagens de Gulliver
3
4
Telles, Lygia Fagundes, Ciranda de Pedra
4
4
Virgílio, Eneida (excertos escolhidos)
2-3
5
Zimler, Richard, O Último Cabalista de Lisboa
4
3

A seguir, o comentário obra a obra. Muitos terão alguns destes livros em casa (ou em casa dos avós). Na biblioteca da escola também há exemplares de um ou outro (pesquisem por aqui). Em último caso, não me importo de ceder o meu exemplar, se o tratarem bem e não se esquecerem de mo devolver.
Advertência importante: muitas destas obras foram adaptadas ao cinema, à BD, a versões juvenis, mas não convém julgar que ter visto o filme substitui a leitura.
Quanto ao que pedirei para controlo da leitura havida, especificá-lo-ei depois. Preferia que, primeiro, lessem apenas, sem demasiadas preocupações quanto ao resultado a apresentar a seguir. Ler por ler, portanto.

[Narrativas angolanas]
Os da minha rua — estórias é um conjunto de duas dezenas de histórias pequenas (de três a meia duzia de páginas), escritas por Ondjaki, escritor angolano relativamente jovem. As pequenas histórias envolvem crianças, passando-se em Luanda. Leem-se bem, creio, embora se centrem mais nos caracteres (sociais, psicológicos) do que no enredo (que tem de ser curto, porque os contos são curtíssimos). Início da primeira historieta, «O voo de Jika»:
O Jika era o mais novo da minha rua. Assim: o Tibas era o mais velho, depois havia o Bruno Ferraz, eu e o Jika. Nós até às vezes lhe protegíamos doutros mais-velhos que vinham fazer confusão na nossa rua.
O almoço na minha casa era perto do meio-dia. Às vezes quase à uma. Ao meio-dia e quinze, o Jika to­cava à campainha.
— O Ndalu tá? — perguntava à minha irmã ou ao camarada António.
— Sim, tá.
— Chama só, faz favor.
Eu interrompia o que estivesse a fazer, descia.
— Mô Jika, comé?
— Ndalu, vinha te perguntar uma coisa.
— Diz.
— Hoje num queres me convidar pra almoçar na tua casa?

Quem me dera ser onda, de Manuel Rui, não é um livro extenso. É um conto grande ou, se se preferir, uma pequena novela. O autor é angolano, o contexto da narrativa também, sendo essa, porventura, a única dificuldade a vencer, já que, por outro lado (tornando a curta obra acessível), se trata de texto quase todo em diálogo. Início:
Faustino só tirava o dedo do botão quando o elevador aparecia.
— Como é? Porco no elevador?
— Porco não. Leitão, camarada Faustino.
— Dá no mesmo em matéria de interpretação de leis.
— Quais leis?
— O problema é o que a gente combinou na assembleia de moradores e o camarada estava presente. Votação por unanimidade. Aqui no ele­vador só pessoas. E coisas só no monta-cargas.
— Mas leitão é coisa?
— Nada disso. Bichos ficou combinado cão, gato ou passarinho. Agora se for galinha morta depenada, leitão ou cabrito já morto, limpo e embrulhado, passa como carne, também está pre­visto. Leitão assim vivo é que não tem direito, ca­marada Diogo, cai na alçada da lei.

Pepetela também é angolano. Parábola do Cágado Velho ler-se-á bem, embora ponha a dificuldade de implicar referências e, aqui e ali, linguagem, que poderão estranhar, porque o contexto é o de Angola (há um glossário de duas páginas no final do livro). Ainda não li este livro, mas lembro-me de ter lido de Pepetela O Cão e os Caluandas e ter gostado. Início de Parábola do Cágado Velho:
Ulume, o homem, olha o seu mundo.
Por vezes a terra lhe parece estranha. Fica num pla­nalto sem fim, embora se saiba que tudo acaba no mar. Chanas e cursos de água por toda a parte. Junto dos rios tem florestas, nalguns pontos apenas muxitos, aquelas matitas em baixas húmidas. As elevações são pequenas, excepto a Munda que corta a terra no sentido norte-sul. Nunca se vê o cume da Munda, sempre encoberto por espessos nevoeiros. O seu kimbo fica colado ao pé da Munda, outra forma de dizer montanha, na base de um morro encimado por grandes rochedos cinzentos, por vezes azuis. De cima do morro sai um regato que acaba por se acoitar, muito à frente, num rio largo, o Kuanza de todas forças e maravilhas, quase fora do seu mundo. Desse regato tiram a água para as nakas, onde verdejam os legumes e o milho de bandeiras brancas. Nele também bebe o gado. Mesmo no tempo das piores secas a água do regato nunca falhou. [...]

[Narrativa caboverdiana]
Chiquinho, de Baltazar Lopes — que foi estudante de Letras em Lisboa e, depois, professor liceal em Cabo Verde, de que era natural —, é um relato homodiegético, em Cabo Verde, da infância até à entrada na vida profissional, enquanto professor, em que há decerto muito de autobiográfico. Leia-se o início:
Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci, no Caleijão. O des­tino fez-me conhecer casas bem maiores, casas onde parece que habita constantemente o tumulto, mas ne­nhuma eu trocaria pela nossa morada coberta de telha francesa e emboçada de cal por fora, que meu avô construiu com dinheiro ganho de-riba da água do mar. Mamãe-Velha lembrava sempre com orgulho a origem honrada da nossa casa. Pena que o meu avô tivesse morrido tão novo, sem gozar direitamente o produto do seu trabalho.
E lá toda a minha gente se fixou. Ela povoou-se das imagens que enchiam o nosso mundo. O nas­cimento dos meninos. O balanço da criação. O tra­balho das hortas e a fadiga de mandar a comida para os trabalhadores. A partida de Papai para a América. A ansiedade quando chegavam cartas. Os melhoramentos a pouco e pouco introduzidos com os dólares que recebíamos. Mamãe deslisava como uma sombra silenciosa no trafêgo da casa. Mamãe-Velha não parava [...]

[Narrativas brasileiras]
Clarice Lispector era brasileira, mas de origem ucraniana. A sua escrita é muito interessante, talvez difícil para alguns. Não seria preciso ler muitos contos (enfim: uns três, pelo menos). A edição cuja capa copio (Contos) não sei se se encontrará ainda. Uma mais recente, Todos os contos, é mastodôntica (isto é, enorme). Mas há mais livros com contos de Lispector (Laços de Família, também publicada pela Relógio d’Água, estará ainda à venda, embora já com outra capa). O passo que copio é o início do primeiro conto «Os desastres de Sofia»:
Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abando­nara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no cur­so primário: era tudo o que sabíamos dele.
O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraí­dos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava pa­letó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele ti­nha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:
Cale-se ou expulso a senhora da sala.

Capitães da Areia, de Jorge Amado, autor brasileiro, é um livro narrativo (romance de aventuras, podemos dizer, embora com mensagem social e política). Transcrevo da contracapa: «Nesta história crua e comovente, Jorge Amado descreve [...] a vida de um grupo de meninos da Bahia, na década de 1930. Divididas entre a inocência da infância e a crueza do universo adulto, as crianças têm de lidar com um quotidiano ao mesmo tempo livre e vulnerável». Início (depois título do capítulo, «Crianças ladronas»:
Já por várias vezes o nosso jornal, que é sem dúvida o órgão das mais legítimas aspirações da população baiana, tem trazido notícias sobre a atividade criminosa dos «Capitães da Areia», nome pelo qual é conhe­cido o grupo de meninos assaltantes e ladrões que infestam a nossa urbe. Essas crianças que tão cedo se dedicaram à tenebrosa carreira do crime não têm moradia certa ou pelo menos a sua moradia ainda não foi loca­lizada. Como também ainda não foi localizado o local onde escondem o produto dos seus assaltos, que se tornam diários, fazendo jus a uma imediata providência do Juiz de Menores e do dr. Chefe de Polícia.

Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles, escritora brasileira, é um romance «de formação», isto é, acerca da aprendizagem da entrada na vida adulta. Nunca li este livro e, embora saiba que o tenho por aí, não estou a encontrá-lo. Por isso, a capa e o início copio-os de um PDF (obrigado, Companhia das Letras). Algures faz-se esta sinopse da narrativa: «Quando um casal de classe média se separa, a caçula [a mais jovem], Virgínia, é a única das três filhas que vai morar com a mãe. É do ponto de vista dessa menina deslocada e solitária que se narram os dramas ocultos sob a superfície polida da família». Início:
Virgínia subiu precipitadamente a escada e trancou-se no quarto.
— Abre, menina — ordenou Luciana do lado de fora.
Virgínia encostou-se à parede e pôs-se a roer as unhas, seguindo com o olhar uma formiguinha que subia pelo batente da porta. “Se entrar aí nessa fresta, você morre!”, sussurrou soprando-a para o chão. “Eu te salvo, bobinha, não tenha medo”, disse em voz alta. E afastou-a com o indicador. Nesse instante fixou o olhar na unha roída até a carne. Pensou nas unhas de Otávia. E esmagou a formiga.
— Virgínia, eu não estou brincando, menina. Abre logo, anda!
— Agora não posso.
— Não pode por quê?

[Narrativas portuguesas]
A Selva, de Ferreira de Castro, foi publicada ainda no primeiro terço do século XX (1930). É um romance, mas quase podemos dizer que não deixa de ser igualmente um «livro de viagem», na medida em que o autor confessou o desejo de nos dar o exotismo do cenário em que viviam os trabalhadores (emigrados de Portugal, sobretudo) nos seringais, no sertão amazónico. O protagonista é um jovem, que saiu de Portugal também por razões políticas. Início:
Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em som­bra metade do corpo alto e sieco, entrou na «Flor da Amazónia» mais rabioso do que nunca.
Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento dos tabaréus receosos das febres amazonenses e tranquilos sobre o presente, porque há anos não havia secas, e afinal, depois de tanto trabalho, de tantas palavras e canseiras, fugirem-lhe nada menos de três! Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse oom três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza? E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e assistira, roído de inveja, à sua partida? Rir-se-iam dele... Quase dois contos ati­rados por água-abaixo!

Serões da Província, de Júlio Dinis, são contos-novelas no ambiente do norte português do século XIX. No tempo da minha mãe, Júlio Dinis era o grande autor, escolar, para os adolescentes (ou, mais, para as adolescentes). O primeiro volume dos Serões reúne obras anteriores ainda aos maiores êxitos de Júlio Dinis (As Pupilas do Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa). Se tivermos paciência com algumas introduções à ação, o resto lê-se bem (muitas vezes há diálogos, embora mais elaborados do que hoje os ouvimos). Bastaria ler um ou dois dos contos-novelas. Início de «As apreensões de uma mãe»:
Não me consta que tenha existido mãe tão extre­mosa, e talvez tão excessivamente indulgente, como o era a Sr.a D. Margarida de Entre-Arroios na época em que, voltando eu de uma pequena digressão pela província do Minho, tive a fortuna de ser recebido como hóspede em casa desta senhora, a meio caminho do Porto a Braga, um quarto de légua afastada da estrada principal.
Era uma época de crise para a fidalga, como por lá lhe chamavam todos os vizinhos, esta a que me refiro. Dias antes haviam as cortes decidido — e qual é a casa rica de província que não tem o seu pequeno parlamento? — que o menino Tomás, o qual então contava já quinze anos feitos, seguisse estudos em Coimbra.
Discutia-se, porém, ainda acaloradamente a escolha de faculdade.

[Entre policial e histórico]
Os Contos, de Edgar Allan Poe, nascido em Boston no início do século XIX, podem ser policiais, de mistério, de terror, fantásticos, góticos. São também muitas as coletâneas com estas histórias de Poe, por isso é preciso ver bem qual lhes será mais útil. A edição cuja capa uso é demasiado grande, há outras bem mais adequadas, até porque lhes bastará ler alguns dos (muitos) contos de Poe. Lembro-me de, mais ou menos com a vossa idade, ter gostado de «O escaravelho de ouro», «Os crimes da Rua Morgue», «O mistério de Marie Rogêt», «A queda da casa de Usher», «O barril de Amontillado», tudo na área policial (e, talvez, do horror). Início de «O escaravelho de ouro»:
Há muitos anos, estabeleci intimidade com um tal Sr. William Legrand. Pertencia ele a uma antiga família huguenote e em tempos fora rico, mas uma série de infortúnios redu- zira-o à miséria. A fim de evitar a humilhação decorrente dos seus desaires, deixara Nova Orleães, a cidade dos seus antepassados, e fixara residência na ilha de Sullivan, perto de Charleston, na Carolina do Sul.
A ilha é muito singular. Constituída por pouco mais que a areia do mar, tem cerca de três milhas de comprimento. A sua largura não ultrapassa em ponto algum um quarto de milha. Está sepa­rada do continente por um regato quase impercetível, que corre pelo meio de uma selva de juncos e lodo, poiso favorito da galinha-d'água.

A Tábua de Flandres, de Arturo Pérez-Reverte, espanhol, autor de best sellers, é um enigma policial com alusões históricas. Cito da contracapa: «No final do século XV, um velho mestre flamengo introduz num dos seus quadros um enigma que pode mudar a história da Europa. No quadro, o duque de Ostenburgo e o seu cavaleiro estão embrenhados numa partida de xadrez enquanto são observados por uma misteriosa dama vestida de negro. Todavia, à época em que o quadro foi pintado, um dos jogadores já havia sido assassinado. // Cinco séculos depois, uma restauradora de arte encontra a inscrição oculta: vis necavit equitem? (Quem matou o cavaleiro?)». Creio que, para muitos, será dos livros mais legíveis. O início é assim (sob o título «Os segredos mestre Van Huys»):
Um envelope fechado é um enigma que contém outros enigmas no seu interior. Aquele era grande, grosso, de papel manila, com o timbre do laboratório impresso no ângulo inferior esquerdo. E antes de o abrir, enquanto o segurava na mão e procurava ao mesmo tempo uma espátula entre os pincéis e frascos de tinta e de verniz, Julia estava muito longe de imaginar até que ponto esse gesto ia transformar a sua vida.

Richard Zimler, americano, naturalizado português, há muito a viver no Porto, escreveu O último cabalista de Lisboa, em torno dos judeus portugueses no século XVI. Também aqui o cenário histórico é pretexto para um romance de mistério. Copio o começo de uma sinopse (do site da FNAC): «Em abril de 1506, durante as celebrações da Páscoa, cerca de dois mil cristãos-novos foram mortos num pogrom em Lisboa e os seus corpos queimados no Rossio. Reinava então D. Manuel, o Venturoso, e os frades incitavam o povo à matança, acusando os cristãos-novos de serem a causa da fome e da peste que flagelavam a cidade». Início do «Prólogo»:
Uma mágoa contida recobria o aparo da pena com que escrevia quando iniciei a narração da nossa história. Estávamos no ano hebraico de 5267, 1507 da era cristã.
Egoisticamente, abandonei o manuscrito, por Deus não me ter recompensado com a tranquilidade da alma. Hoje, passados que são vinte e três anos desta magra tentativa de registar a minha busca de vingança, voltei a afagar as páginas abertas do pergaminho.
O que me terá levado a romper a jura de silêncio?

O Nome da Rosa, de Umberto Eco, é um romance entre policial e histórico (talvez de um género que Eco, sobretudo um professor, um investigador, criou — em que o gosto de seguir uma narraticva se soma à satisfação de a sentirmos inspirada por conhecimentos eruditos). A ação situa-se na Idade Média, o espaço é o de uma abadia.O início tem a forma de paratexto (uma explicação sob o título «Naturalmente, um manuscrito»):
No dia 16 de Agosto de 1968 foi-me parar às mãos um livro que se deve à pena de um certo abade Vallet, Le Manuscript de Dom Adson de Melk, traduit en français d'après l'édition de Dom J. Mabillon (Aux Presses de l'Abbaye de la Source, Paris, 1842). O livro, acompanhado de indicações históricas na verdade bastante pobres, afirmava reproduzir fielmente um manuscrito do século xiv, por sua vez encontrado no mosteiro de Melk pelo grande erudito seiscentista, a quem tanto se deve pela história da ordem beneditina. A douta trouvaille (minha, portanto a terceira no tempo) alegrava-me enquanto me achava em Praga à espera de uma pessoa querida. Seis dias depois, as tropas soviéticas invadiam a desventurada cidade. Consegui afortunadamente alcançar a fronteira austríaca em Linz; dali dirigi-me para Viena, onde me reuni à pessoa esperada, e juntos subimos o curso do Danúbio.
Num clima mental de grande excitação, eu lia, fascinado, a terrível história de Adso de Melk, e tanto me deixei absorver que quase de um jacto redigi a sua tradução, nuns grandes cadernos da Papéterie Joseph Gibert, em que é tão agradável escrever se a caneta for macia. E assim fazendo chegámos às proximidades de Melk, onde se ergue ainda, a pique sobre um meandro do rio, o belíssimo Stift, muitas vezes restaurado através dos séculos. Como o leitor terá imaginado, na biblioteca do mosteiro não encontrei vestígios do manuscrito de Adso.

Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, de Mathias Énard, é um romance histórico. O pretexto da narrativa é a viagem de Miguel Ângelo a Istambul (Turquia), onde projetaria uma ponte, no chamado Corno de Ouro (o estuário que divide o lado europeu de Istambul). A tradução é de Pedro Tamen, outra vantagem. Eis o início (socorro-me de uma transcrição a partir do site da Leya, já que não estou a encontrar o livro que sei ter):
Ao desembarcar em Constantinopla a 13 de maio de 1506, Miguel Ângelo sabe que enfrenta o poderio e a cólera de Júlio II, papa guerreiro e mau pagador, para quem deixou preparada a edificação de um túmulo em Roma. Mas como não havia de responder ao convite do sultão Bayazid, que, depois de ter recusado os planos de Leonardo da Vinci, lhe propõe a conceção de uma ponte sobre o Corno de Ouro?

Ivanhoe, de Walter Scott, é um romance histórico, em ambiente medieval (Inglaterra, século XII, no tempo de Robin dos Bosques). Na orelha da sobrecapa de uma edição deste grosso livro está o seguinte louvor um tanto ingénuo: «Este romance reúne drama com belas donzelas em perigo, torneios empolgantes, roubos, raptos, cercos e muitas cenas de combates excitantes». O passo incial do capítulo I (salto paratextos diversos: introdução, dedicatória, epígrafes):
Na agradável região inglesa banhada pelo rio Don, estendia-se, desde há muito, uma grande floresta cobrindo a maior parte das colinas e vales situados entre Sheffield e a prazenteira cidade de Doncaster. Ainda se pode observar os vestígios desta vasta mata nas nobres localidades de Wentworth, Warncliffe Park e nos arredores de Rotherham. Aqui assombrou, em tempos, o dragão de Wentley; aqui foram travadas muitas das desesperantes batalhas da Guerra Civil das Rosas; e aqui também floresceram os bandos de destemidos fora-da-lei, cujas façanhas se populariza­ram no folclore inglês.

[Viagens]
Na Patagónia, de Bruce Chatwin, é um livro de viagem, muito entrecortado com as histórias daqueles que o narrador vai encontrando. Segundo a lenda, Chatwin, jornalista no Sunday Times, teria abandonado o jornal, dando a conhecer a sua decisão através de um telegrama («Fui para a Patagónia por quatro meses»). Mas um seu biógrafo, Nicholas Shakespeare, esclarece dever tratar-se de uma carta enviada já de Lima (Peru): «Fiz o que tinha ameaçado. De repente, fiquei farto de Nova Iorque e fugi para a América do Sul. Estou há uma semana em casa de um primo em Lima e esta noite vou para Buenos Aires. Tenciono passar o Natal na Patagónia. Estou a investigar, para mim, uma história passada lá, uma coisa que sempre quis escrever». Neste caso, prefiro dar-lhes o mapa que vem no verso da página de rosto e o início do cap. II:

A história de Buenos Aires encontra-se escrita na lista tele­fónica. Pompey Romanov, Emilio Rommel, Crespina D. Z. de Rose, Ladislao Raziwill e Elizabeta Marta Callman de Roths- child — cinco nomes tirados ao calhas na letra R — contam uma história de exílio, desilusão e ansiedade por detrás de cor­tinas rendadas.
Fazia um maravilhoso tempo estival na semana que lá pas­sei. As lojas arvoravam decorações de Natal. O mausoléu a Perón, em Olivos, acabava de ser inaugurado; Evita estava em forma após a sua excursão punitiva aos cofres dos bancos euro­peus. Certos católicos tinham dito uma missa de requiem pela alma de Hitler e aguardava-se um golpe militar.

O Múrmúrio do Mundo. A Índia revisitada, de Almeida Faria, resulta de viagem à Índia, há uns dez anos, pelo seu autor, um escritor e professor universitário português. É bastante magro o livro, o que o torna acessível, mas há bastantes referências culturais, o que implica que se vá lendo parando aqui e ali. (É de uma coleção com muitos livros de viagens, dirigida por Carlos Vaz Marques, da editora Tinta da China. O mesmo se diga do livro que porei a seguir, relativo ao Japão). Início (que insere uma citação, note-se, para depois prosseguir com um texto paralelo):
Despachadas as cousas todas, o Governador se embarcou e se fez à vela meado março, indo ele embarcado na nau São Thomé. Em a qual frota, além de gente ordenada para a navegação das naus, iriam até mil e quinhentos homens de armas, todos gente limpa, em que entravam muitos fidalgos e moradores da casa de el-rei, os quais iam ordenados para ficar na índia, e por regimento que el-rei então fez eram obrigados a servir lá três anos contínuos.
Despachada a bagagem dita de porão, embarcámos aos trinta dias de novembro num avião sem nome de santo mas dota­do do dom de trespassar os céus a altas velocidades. Além da tripulação e dos outros passageiros, éramos cerca de três dezenas de gente limpa em que entravam alguns antigos e atuais moradores da casa da governação do Estado, e não nos esperavam meses e meses sem fim no mar até à índia, nem lá ficaríamos três anos contínuos.

O escritor australiano Peter Carey escreveu O Japão é um lugar estranho. O subtítulo — Viagem de um pai com o seu filho ao país da manga e do anime — indicia-nos suficientemente de que trata este livro de crónicas de viagem. O prefaciador, Carlos Vaz Marques, lembra-nos que «há uma nova geração de adolescentes ocidentais a crescer [...] sob a influência direta da cultura popular japonesa» (e eu admito que esse seja o nicho de leitores deste livro, que aliás todos leremos facilmente). Início:
Estava com o meu filho de doze anos no clube de ví­deo, quando ele alugou O Verão de Kikujiro, um filme japonês com um tipo duro e um miúdo, onde a encantadora personagem do rufia cheio de tiques é representada pelo actor Beat Takeshi. Como poderia eu saber naquela altura aonde aquilo nos iria levar?
Nas semanas seguintes, Charley alugou O Verão de Ki­kujiro várias vezes e, embora estivesse com ele quando isso acontecia, eu não fazia a mais pequena ideia do modo como ele viria a ser profundamente afectado pelo filme até ao dia em que ele me disse, calmamente, en passant: «Quando for grande vou viver para Tóquio.»

As ilhas desconhecidas, de Raul Brandão, é o diário da viagem (de barco) feita por Brandão (escritor português que viveu no último terço do século XIX e no primeiro do XX) aos Açores (e breve passagem também pela Madeira), «notas de viagem quase sem retoques». Raul Brandão é um paisagista, pelo que talvez achem que há descrição a mais; mas há também «quadros humanos», com cenário nas ilhas, em 1924. Só aconselho a quem não se importe que falte um ritmo mais rápido, que não haja mais ação. Início:
DE LISBOA AO CORVO
8 de junho, 1924
A bordo do S. Miguel
Enquanto a gente vê terra, não tira os olhos — não pode — dum resto de areal, dum ponto violeta que desmaia e acaba por desaparecer na crista duma vaga. Um ponto e acabou o mundo. O nosso mundo agora é outro. Durante um momento calamo-nos todos a bordo. A abóbada esbranquiçada fecha-se e encerra o disco azul onde espumas afloram nos redemoinhos que nos cercam: só uma gaivota teima em nos acompa­nhar descrevendo círculos por cima do navio. O ruído da hélice e a vasta desolação monótona...

Italo Calvino, embora nascido em Cuba, era italiano. As Cidades Invisíveis é constituído por muitos pequenos capítulos (de umas três páginas cada, que aludem, cripticamente, às viagens de Marco Polo). Estes textos são paralelos mas não vão construindo um enredo claro, que prenda quem está demasiado habituado a peripécias sequenciais e lógicas. São textos mais descritivos e simbólicos do que estritamente narrativos. Início (de «As cidades e a memória. 1.»):
Partindo-se dali e andando três dias para levante, o homem encontra-se em Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas pavimentadas a esta­nho, um teatro de cristal e um galo de ouro que canta no alto de uma torre todas as manhãs.Todas estas belezas o viajante já as conhece por tê-las visto também noutras cidades. Mas a proprie­dade desta é que quem lá chegar numa noite de setembro, quan­do os dias já diminuem e as lâmpadas multicores se acendem todas ao mesmo tempo por cima das portas das lojas de peixe fri­to, e de um terraço uma voz de mulher grita: uh!, lhe apetece invejar os que agora pensam que já viveram uma noite igual a esta e que então foram felizes.

Para ilustrar o que são as Viagens, de Marco Polo, sirvo-me do início do prefácio (de António Osório) à tradução cuja capa copio: «Estas Viagens nasceram da colaboração de dois homens, Marco Polo, pertencente a uma família de mercadores venezianos, espírito prático, atento às realidades da vida, mas também destemido e aventureiro; e Rustichello da Pisa, autor de romances de cavalaria, cortesão, amante do fantástico, e que escrevia em francês, a língua mais corrente no mundo nobiliário e dos mercadores europeus. Um foi o viajante, outro, o cronista, no seu tempo, fim do século XIII, da mais espantosa viagem até então efectuada. // Nascido em 1254, Marco Polo partiu com 17 anos, acompanhado pelo pai Niccolò e pelo tio Matteo, para chegar ao Oriente, que era, para a imaginação ocidental, o grande fascínio, a terra do mistério, do maravi­lhoso e de riqueza nunca vista. A viagem de ida e volta Veneza / Pequim e a estada duraram 24 anos. Tinha 41 quando regressou». Reproduzo o primeiro parágrafo do cap. 1:
Senhores imperadores, reis e duques e todas as outras gentes que de­sejais conhecer as diferentes raças de povos e a diversidade das regiões do mundo, lede este livro onde encontrareis todas as enormes maravilhas e grandes variedades das gentes da Arménia, da Pérsia e da Tartária, da ín­dia e de muitas outras províncias. E isto vos contará o livro precisamente como o senhor Marco Polo, sábio e nobre cidadão de Veneza, o narra neste livro e ele próprio o viu. Mas ainda há aquelas coisas que ele não viu, mas ouviu de pessoas dignas de fé, e assim as coisas vistas dirá como vistas e as ouvidas como ouvidas, de maneira que o nosso livro seja ver­dadeiro e sem nenhuma mentira.

Danúbio, do italiano Claudio Magris, mais ensaísta, professor, cronista do que escritor de ficção, é de um género indistinto (livro de viagens, ensaio de literatura, autobiografia, romance). Não me parece livro fácil, embora goste de ler Magris, mas mais como se lê um texto de investigação ou cronístico. Há muitas referências culturais — podem talvez ler-se algumas páginas seguidas, como reflexão em torno de literatura, história, geografia. O início é assim (sob o título «1. Uma tabuleta»):
«— Caro amigo!
«O vereador da Câmara Municipal de Veneza, Sr. Mau­rizio Cecconi, na base do projecto exposto, apresentou a proposta de organizar uma exposição sobre o tema "A Arqui­tectura da Viagem: História e Utopia dos Hotéis". Veneza é a sede prevista. Para o financiamento associar-se-ão diver­sas instituições e organizações. Se se mostrar interessado em colaborar...»
O caloroso convite, reiterado há alguns dias, não se dirige a um destinatário preciso, não nomeia a pessoa ou pes­soas que arrebatadamente interpela; o afectuoso ímpeto pa­trocinado pelo Ente Público transcende as individualidades particulares e abrange a generalidade, a humanidade ou pelo menos uma ampla e fluida comunidade de pessoas cultas e inteligentes. [...]


[Clássicos épicos]
A Eneida, de Vergílio, é a epopeia romana (e, aliás, de todos os poemas épicos clássicos, o que mais influenciou Os Lusíadas). Neste caso, não lerão o poema latino, nem uma tradução em verso, mas trechos apresentados em prosa, segundo tradução de professores da Faculdade de Letras de Lisboa (um dos tradutores, Luís M. Cerqueira, foi há anos professor da ESJGF). Para quem goste da cultura universal (com as referências da mitologia, também da história antiga), pode ser uma leitura útil (até por o livro ter servido de modelo a Camões). Não seria necessário lerem-se todos os cantos («livros»), bastariam talvez os primeiros quatro. Início (a proposição que reconhecemos de imediato ter sido o modelo da de Os Lusíadas):
Canto as armas e o varão que nos primórdios veio das costas de Tróia para Itália e para as praias de Lavínio, fugitivo por força do destino, e muito padeceu na terra e no mar por violência dos deuses supernos, devido ao ressentimento da cruel Juno; muito sofreu também na guerra, até fundar uma cidade e introduzir os deuses no Lácio; daqui provêm a raça latina, os antepassados albanos e as muralhas da grandiosa Roma.

A Odisseia, de Homero, é — com a Ilíada — a grande epopeia grega. Embora haja traduções completas — a capa é de uma delas —, julgo que o que se deve aconselhar é a leitura de uma adaptação para jovens, como é o caso da feita por Frederico Lourenço. (Já me parece demasiado infantil, demasiado leve, a versão por João de Barros, da Sá da Costa.) Pergunto-me é se alguns não leram já esta adaptação em anos anteriores (nesse caso, não aceitaria que escolhessem a mesma obra). Outra hipótese é ler apenas alguns dos cantos da versão completa. Início da adaptação de Frederico Lourenço, para a editorial Cotovia:
Mil e duzentos anos antes do nascimento de Jesus Cristo, vivia na ilha grega de Itaca um jovem príncipe cha­mado Telémaco. Seu pai tinha partido para a guerra quando ele era ainda bebé. Agora Telémaco era crescido, quase adulto — mas o pai ainda não tinha voltado. Já se sabia, em Itaca, que a guerra acabara; todos sabiam que Troia, a cidade inimiga, havia sido conquistada e destruída. Dando embora o desconto para as dificuldades de navega­rão e para os perigos do mar, parecia estranho lá na ilha que Ulisses, o pai de Telémaco, não tivesse regressado a casa.
Início da tradução propriamente dita (do mesmo Frederico Lourenço):
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou, / depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada./ Muitos foram os povos cujas cidades observou, / cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar / os sofrimentos por que passou para salvar a vida, / para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas. / Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar. / Não, pereceram devido à sua loucura, / insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon, / o Sol e assim lhes negou o deus o dia do retorno. / Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

A Divina Comédia, de Dante, figura, por vezes, ao lado das grandes epopeias (Ilíada, Odisseia, Eneida, Orlando Furioso, Jerusalém Libertada, Os Lusíadas), embora não se possa considerar um poema épico (talvez épico-teológico). Conta a viagem de uma alma, por Inferno, Purgatório, Paraíso. Parece-me difícil que consigam seguir, sem muito esforço, o texto de Dante Alighieri (traduzido por Vasco Graça Moura). Início do Canto I «[Na selva escura. O monte e as três feras. Encontro de Virgílio. Profecia do Lebréu. Princípio da viagem]»:
No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e forte,
que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
mas, por tratar do bem que eu nela achei,
direi mais cousas vistas de tal sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
tão grande era o meu sono no momento
em que a via veraz abandonei.
Mas indo ao pé de um monte com assento
lá onde terminava aquele vai'
que o coração me enchera de tormento,
alto lhe vi nos ombros o cendal
vestido já dos raios do planeta
que leva à recta via cada qual.

[Clássicos de aventuras ou satíricos e paródicos]
As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, irlandês, serão muito conhecidas por todos mas provavelmente mais através de versões em desenhos animados ou de filmes. Tratar-se-ia agora de ler a tradução da narrativa completa — mais filosófica, mais didática, mais de subtil crítica social, do que a imagem que muitos terão. É um longo relato de viagens, fictícias, com a minúcia dos relatos do século XVIII. São quatro viagens, embora a primeira, ao país de Lilliput, é que tenha ficado mais na tradição cultural. Para capa e para reprodução do início do capítulo 1 da parte I, uso uma coleção do Público (haverá muitos livros desta coleção em vossas casas ou, pelo menos, na biblioteca da escola):
O meu pai tinha uma pequena propriedade em Nottinghamshire. Dos seus cinco filhos, eu fui o terceiro, a quem ele mandou para o colégio Emanuel, em Cambridge, com cator­ze anos de idade e onde residi durante três anos, aplicando-me diligentemente aos estudos; como, apesar de dispor de uma pequena pensão, as despesas do meu sustento eram demasiado elevadas para a sua magra fortuna, colou-me como aprendiz do Sr. James Bates, iminente cirurgião de Londres, com quem fiquei durante quatro anos. As pequenas somas que o meu pai me enviava ocasionalmente apliquei-as no estudo da navegação e noutras áreas da matemática, de utilidade para quem pretende viajar, tal como sempre ima­ginei que seria, mais cedo ou mais tarde, o meu destino. Quando deixei o Sr. Bates, regressei a casa do meu pai, onde, com a sua ajuda, e do meu tio John e outros parentes, consegui reunir quarenta libras e obter a promessa de trinta libras anuais para a minha subsistência em Leyden. Aí estu­dei medicina durante dois anos e sete meses, sabendo que tais conhecimentos me seriam úteis nas longas viagens.

As Aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, também já foram objeto de muitas adaptações, alusões diversas, motivo de intetextualidade em outras obras literárias ou fílmicas. Ler o texto original completo, em tradução portuguesa, é o que se pretende agora. Começa por ser uma autobiografia dos tempos de formação, depois é relato de viagens e naufrágio; finalmente, o das aventuras de sobrevivência numa ilha. A capa que ponho é a da edição por onde li, com a vossa idade, em 1975. Início:
Nasci na cidade de Iorque no ano de 1632, originário de uma boa família, mas estrangeira no país. O meu pai, natural de Brema, dedicou-se ao comércio em Hull, onde adqui­riu uma fortuna muito confortável. Mais tarde, retirou-se dos negócios e foi viver para Iorque, onde casou com minha mãe, que pertencia à família Robinson, uma das melhores do condado. Daí deriva o meu nome de Robinson Kreutznaer, a seguir transfomado por uma corrupção muito corrente em Inglaterra, no de Crusoé, com o qual hoje se chama e se assina a minha família e eu próprio também. Os meus companheiros nunca me chamaram de outro modo.

O Lazarilho de Tormes, de autor anónimo, é uma novela picaresca, publicada em 1554 (já exercia o poder Filipe II de Espanha, o mesmo que seria depois Filipe I de Portugal). O herói é um anti-herói, um jovem pobre, que age com esperteza, cujo relato autobiográfico vamos acompanhando (do nascimento à idade adulta) e serve de documento de uma parte da sociedade de então. Não é um texto longo, mas tem a dificuldade de, embora brincalhão, ter origem quinhentista (apesar de a tradução já mitigar estes problemas). Início (do «relato primeiro»):
Antes de tudo o mais, saiba pois Vossa Mercê que me chamam Lázaro de Tormes, filho de Tomé González e de Antona Pérez, naturais de Tejares, aldeia de Salamanca. Nasci dentro do rio Tormes, e por isso fiquei com este sobrenome; e foi assim que aconteceu: o meu pai, que Deus lhe perdoe, estava encarregado de abastecer a moenda de uma azenha que existe à beira daquele rio, e nela foi moleiro mais de quinze anos. E uma noite, estando a mi­nha mãe na azenha pejada de mim, chegou-lhe a hora do parto e ali me pariu. Posso deste modo dizer com verdade que nasci no rio.
Ora, sendo eu menino de oito anos acusaram o meu pai de certas sangrias ignobilmente feitas nos sacos dos que iam ali moer; por isso foi preso; e como confessou e não negou, sofreu persegui­ção da Justiça. Espero em Deus que na glória se encontre, porque o Evangelho lhes chama bem-aventurados.

D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes (para Espanha, o equivalente a Camões para Portugal; e, curiosamente, falecido quase no mesmo dia em que morreu Shakespeare), é uma paródia dos romances de cavalaria (e, de caminho, faz o retrato de alguns tipos sociais da Espanha de quinhentos, mais do que da de seiscentos — a primeira parte é publicada em 1605; a segunda parte, em 1615). Poderiam ler apenas alguns (enfim, bastantes) capítulos, que aliás não são muito grandes. Início (uma vez saltado algum paratexto) do capítulo I («Que trata da condição e exercício do famoso e valente fidalgo Dom Quixote de la Mancha»):
Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo vivia um fidalgo desses de lança no cabide, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor. Um cozido com mais vaca que carneiro, salpicão as mais das noites, lutos e quebrantos'1' aos sábados, lentilhas às sextas-feiras, algum borracho acrescentado aos domingos, consumiam três partes de sua fazenda. O resto completavam-no um saio de pano preto, calças de veludo para as festas com suas pantufas do mesmo tecido, enquanto nos dias de semana se honrava com sua malha de lã da mais fina. Tinha em sua casa uma ama que passava dos quarenta e uma sobrinha que não chegava aos vinte, e um moço para toda a obra que tanto selava o rocim como pegava na podoa. A idade de nosso fidalgo rasava os cinquenta anos. Era de compleição rija, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça. Pretende-se que tinha o sobrenome de Quijada, ou Quesada, que há nisto alguma diferença entre os autores que sobre este caso escrevem, ainda que por conjecturas verosímeis se deixe entender que se chamava Quijana. Mas tal pouco importa a nosso conto: basta que na narração dele não nos afas­temos um ponto da verdade.

[Biografia e reflexão histórica]
Vida e obra do Infante D. Henrique é uma biografia escrita por Vitorino Nemésio — decerto um dos portugueses que, durante o século XX, escreveram melhor. Transcrevo do manual Entre Nós e as Palavras, 10 (de Alexandre Dias Pinto e Patrícia Nunes): «Além de ser uma breve biografia de D. Henrique, a narrativa é também um relato do papel do Infante na preparação e no lançamento dos Descobrimentos Marítimos portugueses». Início do capítulo I («Os primeiros anos do Infante»):
Que sabemos da meninice do Infante D. Henrique àparte dos irmãos? O regozijo tripeiro por ocasião do batismo, os nomes do padrinho e da ama. Mais nada. Assim, as fases da sua baixa idade só as podemos sondar pelo ambiente que Fernão Lopes esparsamente desenha na Crónica de D. João I ao fio dos primeiros anos de bem-casado do Rei. D. Duarte, o irmão mais velho do Infante, entreteve-se a compartimentar essas «hidades» da vida humana, que depois dos oitenta lhe parecia só «trabalho e door»: «ifancia ataa VII anos, puerícia ataa XIIII, ataa XXI adollacencia, mancebia ataa cinquoenta, velhice ataa LXX, senyum» (senectude) «ataa LXXX. E dalli ata a fim da vida decrepidõoe». Mas preferia «outra repartiçam», de sete em sete anos, de que fixaremos apenas as fases biográficas galgadas pelos três infantes mais velhos da «ínclita geração» até à tomada de Ceuta: «Na primeira, aos sete, se mudam os dentes. Segunda, de XIIII, som em hidade pera poderem casar. Terceira, de XXI, que acabam de crecer.»

As Cruzadas Vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf. Como não me quero demorar mais, limito-me a transcrever o que encontro sobre esta obra num caderno de apoio a um manual (Novo Plural 10): «É a autobiografia do embaixador árabe Hasan al-Wazzan, capturado e entregue ao papa Leão X, quando ia para Meca em peregrinação. Combinando História e Literatura, o livro revela, numa perspetiva árabe, contrária àquela a que nos habituámos no Ocidente, episódios e personagens famosos ligados às Cruzadas, desde o século XI, mostrando os cruzados cristãos como bárbaros cruéis, sanguinários, fanáticos e culturamente atrasados». Início (do «Prólogo»):

Bagdad, agosto de 1099
Sem turbante, cabeça rapada em sinal de luto, o venerável cádi Abu-Saad al-Harawi entra aos gritos no vasto divã do califa al-Mustazhir-billah. Na sua esteira, uma multidão de companheiros, jovens e velhos. Estes aprovam ruidosamente cada uma das suas palavras e oferecem, como ele, o espectáculo provocante de uma barba abundante sob um crânio nu. Alguns dignitários da corte tentam acalmá-lo, mas, afastando-os de um gesto desdenhoso, ele avança resolutamente para o meio da sala, depois, com a eloquência veemente de um pregador do alto do púlpito, admoesta todos os presentes, sem atender à sua categoria:
— Ousais dormitar à sombra de uma venturosa segurança, numa vida frívola como a flor do jardim, quando os vossos irmãos da Síria já não têm outra morada senão as selas dos camelos ou as entranhas dos abutres? Quanto sangue derramado! Quantas belas donzelas tiveram, por vergonha, de esconder o seu doce rosto nas suas mãos! Então os valo­rosos Árabes sujeitam-se à ofensa e os bravos Persas aceitam a desonra?
«Era um discurso de fazer chorar os olhos e comover os corações», dirão os cronistas árabes. Toda a assistência é sacudida pelos gemidos e lamentações. Mas al-Harawi não quer os seus soluços.

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