Saturday, August 23, 2025

Aula 114

Aula 114 (23 [3.ª], 26/mar [1.ª]) 

Põe na ordem correta os dezasseis versos do poema (em quatro estrofes: 4 + 4 + 4 + 4) de Cesário Verde dentro do sobrescrito. Desenho dos fragmentos de papel não é indicativo (versos já estavam misturados quando os recortei). Ao contrário, as rimas são úteis (a rima é cruzada).



Podes agora ver melhor o poema de Cesário Verde que estiveste a reconstituir:

De tarde

Naquele pic-nic de burguesas,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.

 

Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão-de-bico

Um ramalhete rubro de papoulas.

 

Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão de ló molhado em malvasia.

 

Mas, todo púrpuro a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, Cânticos do Realismo

Completa a minha análise de «De tarde», sabendo que as lacunas correspondem sempre a expressões a transcrever do próprio poema.

Logo o título, «_______», que é um modificador temporal, remete para um momento, uma coisa «__________», que merecia ser registado numa «________», apesar de aparentemente irrelevante.

Poderíamos dizer que o momento em causa era suscetível de ser fixado numa polaroid (se no século XX) ou numa imagem em instagram (atualmente), mas a pintura coaduna-se bem com as várias referências cromáticas: o «granzoal ____», o «ramalhete ____» ou, quando sai da renda, «_____». Quanto ao sol a pôr-se («____________»), é uma notação de ordem visual e mais um elemento que aproxima o poema das pinturas impressionistas (vem à lembrança o quadro «Déjeuner sur l’herbe», de Edouard Manet, que usei como slide da aula). Além das cores, há pormenores figurativos: o rendilhado do decote por onde saem «______» (com que se comparam os «_______»).

Nem só o sentido da visão é convocado, outros sentidos estão presentes: o olfato e o gosto, a propósito das «_________», dos «_______», do «______» embebido em vinho doce; e não será forçado vermos algo de tátil na alusão às «_______» que saem do decote da rapariga.

Muito característica do poema (e de Cesário Verde) é a sua narratividade. O poeta parece ser um observador que faz parte do grupo (vejam-se os deíticos: pronomes pessoais «__», «__»; determinantes demonstrativo «[n]____» e possessivo «___»). Relata um episódio cuja protagonista é uma rapariga (uma burguesa?) capaz de colher ramalhetes de papoulas «___________». As ações estão demarcadas em função dos espaços («a _______», «em ________») e do tempo («foi _______», «pouco _____»).

A última quadra (não, não é um soneto: são quatro quartetos) apresenta-nos o sujeito poético (o «narrador») embevecido com o supremo encanto do «_____» (e não é interessante o uso do estrangeirismo?). Esse primeiro plano da câmara termina com o verso «_______________», que quase repete o v. 8 («______________»). Os artigos definidos no último verso do poema («____», em vez do indefinido «__», que estava no v. 8; e «[d]__», em vez da preposição simples «__») mostram que a observação se foi aproximando e que o ramalhete de que se fala já é inconfundível. A outra diferença entre os versos é o v. 16 terminar com um _________.

E, se atentarmos no som, perceberemos que há nesse verso uma aliteração [cfr. p. 383], conseguida pela repetição da consoante «__». Já na segunda estrofe havia uma figura fónica idêntica, entre a assonância (‘repetição de som vocálico’) e a aliteração, no verso «________________», em que predominavam as vogais nasais e a consoante z.

Acerca da quadra final é ainda preciso referir que a alteração da ordem natural da frase, uma anástrofe ou hipérbato [cfr. p. 383], faz que o último verso seja o grupo nominal que se pretende destacar («_________________»). Por outro lado, por marcar uma oposição, uma reorientação, a conjunção adversativa «___» valoriza o que depois será o foco da quadra.

Também o tempo verbal usado nesta quarta estrofe, o imperfeito do indicativo («__»), marca a perenidade daquela visão singular, por contraste com o incidente, efémero, que era a merenda de burguesas (a que convinha o perfeito do indicativo: «houve», «foi», «____», «______», «_______»).

Escutaremos agora (lendo ao mesmo tempo os versos) as duas últimas partes de «O Sentimento dum Ocidental».

 

 

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