Aula 114
Aula 114 (23 [3.ª], 26/mar [1.ª])
Põe na ordem correta os dezasseis versos do poema
(em quatro estrofes: 4 + 4 + 4 + 4) de Cesário Verde dentro do sobrescrito.
Desenho dos fragmentos de papel não é indicativo (versos já estavam misturados
quando os recortei). Ao contrário, as rimas são úteis (a rima é cruzada).
Podes agora ver melhor o
poema de Cesário
Verde que estiveste a reconstituir:
De tarde
Naquele pic-nic
de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
Cesário Verde, Cânticos do Realismo
Completa a minha análise de «De tarde», sabendo que as lacunas
correspondem sempre a expressões a transcrever do próprio poema.
Logo
o título, «_______», que é um modificador temporal, remete para um momento, uma
coisa «__________», que merecia ser registado numa «________», apesar de
aparentemente irrelevante.
Poderíamos
dizer que o momento em causa era suscetível de ser fixado numa polaroid (se no
século XX) ou numa imagem em instagram (atualmente), mas a pintura coaduna-se
bem com as várias referências cromáticas: o «granzoal ____», o «ramalhete ____»
ou, quando sai da renda, «_____». Quanto ao sol a pôr-se («____________»), é
uma notação de ordem visual e mais um elemento que aproxima o poema das
pinturas impressionistas (vem à lembrança o quadro «Déjeuner sur l’herbe», de
Edouard Manet, que usei como slide da
aula). Além das cores, há pormenores figurativos: o rendilhado do decote
por onde saem «______» (com que se comparam os «_______»).
Nem
só o sentido da visão é convocado, outros sentidos estão presentes: o olfato e
o gosto, a propósito das «_________», dos «_______», do «______» embebido em
vinho doce; e não será forçado vermos algo de tátil na alusão às «_______» que
saem do decote da rapariga.
Muito
característica do poema (e de Cesário Verde) é a sua narratividade. O poeta
parece ser um observador que faz parte do grupo (vejam-se os deíticos: pronomes
pessoais «__», «__»; determinantes demonstrativo «[n]____» e possessivo
«___»). Relata um episódio cuja protagonista é uma rapariga (uma burguesa?)
capaz de colher ramalhetes de papoulas «___________». As ações estão demarcadas
em função dos espaços («a _______», «em ________») e do tempo («foi _______»,
«pouco _____»).
A
última quadra (não, não é um soneto: são quatro quartetos) apresenta-nos o
sujeito poético (o «narrador») embevecido com o supremo encanto do «_____» (e
não é interessante o uso do estrangeirismo?). Esse primeiro plano da câmara
termina com o verso «_______________», que quase repete o v. 8 («______________»).
Os artigos definidos no último verso do poema («____», em vez do indefinido «__»,
que estava no v. 8; e «[d]__», em vez da preposição simples «__») mostram que a
observação se foi aproximando e que o ramalhete de que se fala já é
inconfundível. A outra diferença entre os versos é o v. 16 terminar com um
_________.
E,
se atentarmos no som, perceberemos que há nesse verso uma aliteração [cfr. p. 383], conseguida pela repetição
da consoante «__». Já na segunda estrofe havia uma figura fónica idêntica,
entre a assonância (‘repetição de som vocálico’) e a aliteração, no verso
«________________», em que predominavam as vogais nasais e a consoante z.
Acerca
da quadra final é ainda preciso referir que a alteração da ordem natural da
frase, uma anástrofe ou hipérbato [cfr.
p. 383], faz que o último verso seja o grupo nominal que se pretende destacar
(«_________________»). Por outro lado, por marcar uma oposição, uma
reorientação, a conjunção adversativa «___» valoriza o que depois será o foco
da quadra.
Também
o tempo verbal usado nesta quarta estrofe, o imperfeito do indicativo («__»),
marca a perenidade daquela visão singular, por contraste com o incidente,
efémero, que era a merenda de burguesas (a que convinha o perfeito do
indicativo: «houve», «foi», «____», «______», «_______»).
Escutaremos agora (lendo ao mesmo tempo os versos) as duas últimas partes de «O Sentimento dum Ocidental».
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Português / 12.º 1.ª; 12.º 2.ª; 12.º 3.ª / Escola Secundária José Gomes Ferreira / 2025-2026
(O nome do blogue aproveita título de um livro do patrono da escola.)
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