Camões pelo 12.º 3.ª
Carolina,
Francisca, Malu (12.º 3.ª)
O que ficou do
silêncio
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Aproveita-se o soneto «Apolo e as nove Musas, discantando» (e há mérito na escolha deste soneto, se interpreto bem o sentido que querem dar ao filme). Falta mais criação textual vossa (e mais discurso oral: trabalho, afinal, era para avaliar a expressão oral). Se bem leio nas entrelinhas, pretende-se homenagear um cão ou cães que tivesse(m) morrido (o soneto traduz como a felicidade se pode tornar em tristeza, em saudade; por isso era apropriado a uma situação de desilusão ou mágoa); o título do vídeo é relativamente explícito. Talvez devesse haver mais texto, quer para ficar mais clara a intenção quer porque se tratava de tarefa para mostrar discurso oral. É claro que as imagens dos animais são meigas; e que também revelam sensibilidade na fotografia da cidade e até na música; mas falta linha narrativa mais óbvia. E mais discurso. Era preciso planificar mais como cinema (fugindo à simples recolha de imagens poéticas), mesmo que isso pudesse deixar o filme menos poético/triste. Bom (-)/Bom -
Anita, Liu, Manuela (12.º 3.ª)
Deixei uma
pergunta para Camões
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Textos de Camões usados foram os sonetos «Amor é um fogo que arde sem se ver», «Transforma-se o amador na cousa amada», «Busque Amor novas artes, novo engenho». Versos destes sonetos vão sendo incorporados em diálogos entre três personagens: duas amigas (muito reflexiva e interrogativa, cheia de dúvidas, uma; e a outra, serena e ponderada, mais conclusiva) e Camões que aparece cheio de energia, de vários lados, qual diabrete que não está quieto nem calado. Os diálogos, sem serem muito sofisticados (ou até por isso mesmo), parecem naturais, a inserção dos segmentos de Camões não é demasiado forçada. Como há vários ângulos de filmagem (sendo o cenário o jardim do Palácio Baldaya, salvo erro) e a montagem é competente, o filme não se torna monótono. Boas representações. Correções: na referência dos sonetos, num dos slides no final, falta um «um» («Amor é um fogo que arde sem ver») no verso do primeiro texto e está errada a citação do soneto que designam «Não pode tirar-me as esperanças» (o v. 1 é «Busque Amor novas artes, novo engenho»; só o v. 3 é que é «que não pode tirar-me as esperanças»). Nas legendas surge «tava» (por «estava»). Talvez devessem ter desligado as legendas automáticas ou corrigido os erros. Bom (+) / Bom +
Afonso L., Diogo,
Martim, Tomás C. (12.º
3.ª)
Rumo à Índia
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A ideia é boa:
equiparar a viagem à Índia, que é o tópico principal dos Lusíadas, a um
jogo, aproveitando depois os elementos discursivos típicos do futebol, que
constituem o texto criado (sempre em metáforas entre futebol e viagem). Ou
seja, apostava-se numa alegoria (através do futebol figurava-se o que
envolveram, em termos emocionais e práticos, os descobrimentos). Há
interessantes achados (por exemplo, o Velho do Restelo enquanto adepto contra a
direção do clube; ou, no final, o Camões-repórter a dizer que o assunto talvez
pudesse vir a ser tratado num livro quem sabe chamado Os Lusíadas). Em
geral, faltou um pouco mais de elaboração dos textos que seriam depois
representados. Ter-se-iam encontrado ainda mais soluções engraçadas,
aproveitando melhor o cruzamento de viagem e jogo de futebol. Há uma
transposição do mesmo tipo (que depois lhes mostrarei) num texto de Umberto Eco
(no Diário Mínimo), que finge que a chegada à América de Cristóvão
Colombo seria transmitida num relato de futebol. De certo modo, vocês fizeram o
simétrico, a partida das naus do Restelo. O texto escrito deveria estar mais
revisto até ficar o melhor possível, e, sobretudo, teria de ser mais ensaiado
(há hesitações na representação). Tomás não chega a intervir oralmente. Filme
tem onze segundos a mais do que eu pedira. Bom / Bom (-)
Adrian, Caeiro (12.º 3.ª)
Nova Musa, mesmos
versos
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Foram criados
três sonetos a partir de versos de outros sonetos de Camões (não vou aqui citar
todos os sonetos a esses três foram importar os seus versos, mas eles estão
indicados em slides dentro do vídeo). O metro é sempre decassilábico (bem, se
se usam versos de sonetos de Camões, teriam de ser sempre versos de dez
sílabas, são sempre decassilábicos os versos dos sonetos de Camões). O esquema
rimático, dizem os autores, é sempre ABBA/ABBA/CDC/DCD. Reparo meu: no caso dos
tercetos de um soneto, o esquema rimático não tem de ser CDC/DCD (pode ser CDE/CDE,
CDE/CED, etc.); geralmente, nos sonetos de Camões há três rimas diferentes nos
dois tercetos. O resultado é interessante, mostra capacidades de reconhecimento
das rimas (não há erros na escolha das rimas). Toda a parte de transcrição de
texto no vídeo é muito segura, não há quase erros, apesar de se ter de fazer
imensas referências. Também a leitura em voz alta quase não incorre em confusões
(indico a seguir as poucas que encontrei). Nem sempre a sintaxe dos sonetos
inventados parece gramatical e, sobretudo, nem sempre se percebe o sentido
(bem, é verdade que com os textos genuinamente de Camões também é um pouco assim...).
Mas há boas sequências em que há gramaticalidade e, por vezes, até se entrevê
um contexto para o fraseado. Fica a faltar mais oralidade (podiam ter investido
mais na entoação até de modo a simular a significação possível de cada texto?),
mas o trabalho tem méritos na parte de elaboração de texto. Título também é
muito apropriado. Em «Posto me tem Fortuna em tal estado», «posto» deve ler-se
«p[ô]sto» (= causal, ‘uma vez que’, ‘porque’); «comprida» talvez se deva ler
«c[u]mprida», porque corresponde efetivamente a «cumprida» (particípio passado
de «cumprir»). «Que não pode tirar-me as esperanças» não é v. 1 de soneto (o
soneto é «Busque Amor novas artes, novo engenho»; por outro lado, usam o
singular «esperança» na composição construída, quando o que temos no verso
original é um plural). «Repousa lá no céu eternamente» não é v. 1 (o v. 1 é
«Alma minha gentil que te partiste»). Correções: o slide final que explica o
trabalho tem erros feiosos: separam o sujeito do predicado com uma vírgula (não
pode ser «*Os poemas lidos, são sonetos...», teria de ficar «Os poemas lidos
são sonetos); o período «Em que cada verso pertence a um poema diferente de
Camões lírico.» não é uma frase completa, não pode ser um período (é uma oração
adjetiva relativa que terá de se colar a uma sua subordinante). Bom
João A.,
Miguel H., Rodrigo, Romão (12.º
3.ª)
A aula de Camões
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Representa-se uma
aula de Português, em que se tratasse da lírica de Camões. O soneto a que se
recorre é, como de costume, «Amor é um fogo que arde sem se ver». Procura-se,
portanto, a propósito de um contexto de ensino de Camões fazer algum tipo de
cómico (de situação, de personagem ou de linguagem). Há momentos em que isso é
conseguido (por exemplo, o modo como o aluno sinaliza a sua disponibilidade
para ler ante o professor míope; a observação sobre o desconcerto provocado
pelo poema sobre desconcerto; talvez a confusão entre autor a estudar e um
guarda-redes; o caos final), mas era possível fazer melhor. É certo que
escrever para humor é do mais difícil que há, mas tenho a certeza de que, se
tivessem gastado mais tempo com a tarefa, chegariam a situações bem mais
risíveis. Faltou-lhes mais tempo a redigirem o texto, a ter ideias.
Repaldaram-se no à-vontade da representação, mas isso não resolve tudo. Os
improvisos, em humor, têm de ser muito preparados. Há competência técnica na
filmagem e na montagem. Correções: «*É nunca contentar-se e contente», diz
Miguel, mas é «É nunca contentar-se de contente» que está no soneto. Bom (-)
Cláudia, João
C., Pedro R. (12.º 3.ª)
Declamação Lo-Fi
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Trata-se de um
formato a que poucos recorreram, o de «clip de poesia». O poema é lido,
procurando-se a sua valorização pela leitura expressiva, pela fotografia (as
paisagens filmadas que ficam atrás) e pelo lettering (o poema vai sendo
legendado, mas essas legendas usam fontes muito diversificadas, chamativas, até
por isso mesmo). O formato assemelha-se aos da série Voz, das Produções
Fictícias, mas aí costuma aparecer o ator que lê o texto. Como são três
autores, cada um acaba por ler poucos versos. Ora, teria sido fácil preencher
com mais sonetos o tempo de que dispunham. O filme só tem um minuto: num
trabalho por uma tríade, esperar-se-ia o aproveitamento do tempo todo, ou seja,
dos três minutos. Até para se aferir da capacidade para ler expressivamente,
teria sido útil usar mais poemas. Esperava maior investimento num trabalho
anunciado há tanto tempo. O soneto que usam é «Pelos extremos raros que
mostrou?» (um soneto identifica-se pelo v. 1), não «A vós seu resplandor deu
Sol e Lũa»
(que o v. 12). Numa boa edição virá «resplandor» e «Lũa» (que rima com
«ũa»,
no v. 10). Bom -
Duarte,
Francisco, Miguel T., Tomás A.
(12.º 3.ª)
Caminho moral até
à Ilha dos Amores
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Filme aproveita o
canto IX, que, como se sabe, inclui o passo da Ilha dos Amores, mas não se
debruça sobre os alegrias que se esperam de uma ilha tal, antes se fixa no que
se deve fazer para se ser recompensado com esse prémio (e é esse o verdadeiro
sentido deste passo dos Lusíadas, o reconhecimento do mérito dos
navegantes). Ou seja, as estâncias mais tidas em conta são as da reflexão do
poeta (Os Lusíadas, IX, 88-95). Um dos méritos do trabalho é ter-se
seguido um passo concreto, localizado, do poema épico, tratando-o, por assim
dizer, corpo a corpo. Para se mostrar como se chega a ser merecedor dos
prazeres da ilha, alude-se a comportamentos viciosos a evitar (chegar atrasado
às aulas; comer pizza; receber massagens; tirar telemóveis aos outros). Um
insuportável moralista vestido de pintor renascentista dá a mão a gente que o
fica a odiar (e percebemos que o Camões-pintor-beato vai depois comer as
pizzas, vender os telemóveis, faltar às aulas). A ideia para a situação criada é,
por si só, um achado, propicia diálogos que facilmente fazem sorrir; admito,
ainda assim, que, ao nível do discurso, se pudesse aproveitar ainda mais este
«plot». Boa realização (assente em decerto boa capacidade técnica e muito
trabalho de planificação, como o cinema implica). Representações decerto bastante
ensaiadas. Correção: as aulas não começam às 8.15, começam às 8.10. Muito Bom (-)
António,
Farinha, Pedro B. (12.º
3.ª)
A Lira de Camões
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Uma tríade de
jovens com pouco que fazer chega à conclusão de que, para tornar Camões mais
chamativo e torná-lo um verdadeiro ídolo de outros adolescentes tristes, é
conveniente formar-se uma banda que possa musicar um seu soneto («Cá nesta
Babilónia, donde mana»), tornando-o ainda mais indecifrável do que já é. O
mérito deste vídeo é saber contar-se uma história e ter-se conseguido encaixar
nela um momento musical. Vê-se que houve planificação e ensaio (cinema não é
compatível com improvisos). O facto de termos dois momentos (o diálogo entre
fãs e detratores de Camões e a interpretação musicada do soneto) torna o
trabalho mais interessante. Na declamação do soneto, houve alguns erros. Por
exemplo, o verso final é «Vê se me esquecerei de ti, Sião!» e parece-me ouvir
um criativo «vê se poderei estar são» (creio que António podia ter estudado
mais a leitura deste soneto). Bom +/Muito Bom-, mas, tendo havido dia e meio de
atraso, nota transforma-se em Bom(+).
Guilherme,
João E. (12.º 3.ª)
Dissabores
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Assistimos, no início,
a um desencontro amoroso, o que faz que Camões se entretenha a dar toques na
bola e vá até à rua. A meio da deceção de que padece Camões/Guilherme, surge Deus/João,
que não parece um Deus em que nos possamos fiar, antes um Deus trocista e
irritante. Camões não fica, portanto, mais moralizado e afasta-se a declamar o
soneto «Erros meus, má fortuna, amor ardente», enquanto Deus vai ver o Benfica.
Não é fácil fazer humor, mas os autores conseguiram-no, graças à inteligência do
texto, a certos efeitos técnicos de montagem, à própria representação. O facto
de as intervenções serem curtas, liminares, joga a favor do efeito que se
pretende (a surpresa que nos faz sorrir). Boa planificação, que permite que o
episódio termine com a primeira quadra do soneto de Camões. Correção: onde está
«*em minha perdição se conjugaram» seria «em minha perdição se conjuraram». A
seguir a «Camões triste», logo no início, não se percebe bem o que é dito
(«pensa para si»?). Foi entregue com um dia de atraso; portanto, o Bom+ torna-se
Bom(+).
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Português / 12.º 1.ª; 12.º 2.ª; 12.º 3.ª / Escola Secundária José Gomes Ferreira / 2025-2026
(O nome do blogue aproveita título de um livro do patrono da escola.)
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