Saturday, August 23, 2025

Aula 85

Aula 85 (9 [3.ª, 2.ª], 12/fev [1.ª]) Recorda as cenas XIV e XV do segundo ato de Frei Luís de Sousa. Procura criar um título-síntese expressivo para cada uma dessas cenas. (Deixei as cenas anteriores para perceberes o estilo que devem ter as frases-sínteses.)

X

D. Madalena desabafa com Frei Jorge as razões do seu desespero em relação ao dia em que decorre a ação e o seu sentimento de pecado em relação ao amor por Manuel de Sousa.

Três efemérides (e a última com um pecado em anexo)

XI

Miranda anuncia a chegada de um peregrino que vem da Terra Santa com um recado para Madalena que apenas a ela dará. Madalena decide recebê-lo.

«Venho trazer-vos recado... Um estranho recado»

XII

Frei Jorge reflete sobre o comportamento de muitos falsos peregrinos que se aproveitam da caridade dos fiéis.

Cuidado com os romeiros! (E o caso não é para menos...)

XIII

Encontro do Romeiro com Madalena.

 «A mesma» diz quem já não é o mesmo e nem sabe que ela também já não é a mesma.

XIV

O Romeiro vai dando a conhecer a sua identidade (ainda que os seus sinais não sejam entendidos). A revelação de que D. João está vivo é para D. Madalena a confirmação de todos os presságios de desgraça.

 

XV

À pergunta de Frei Jorge sobre a sua identidade, o Romeiro responde «Ninguém!» e identifica-‑se apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal.

 

Num livro saído há quase dez anos — Malparado. Diários (novembro de 2012 — março de 2015), Lisboa, Tinta-da-China, 2017, pp. 56-57 —, Pedro Mexia escreveu o seguinte a propósito do final do ato II de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett:

O Frei Luís de Sousa é, convenhamos, um bocado intragável. E todos se lembram da cena emblemática em que um dos protagonistas está disfarçado de peregrino, e alguém lhe pergunta: «Romeiro, quem és tu?». Ele então responde: «Ninguém». Durante mais de um século, segundo me contam, os atores paravam uns segundos, olhavam para a plateia, abriam os braços e exclamavam um «nin-guém» escandido e em maiúsculas. Era horrível, e toda a gente adorava. Um dia, um encenador checo, o Listopad, fez a peça cá, e pediu ao ator que dissesse esse «ninguém» para dentro, de um modo murmurado, quase inaudível. Toda a gente detestou, mas eu acho maravilhoso. Certo tipo de coisas só podem ser ditas como aquele ator disse «ninguém», quase para si mesmo, e não com uma ênfase exibicionista, de braços estendidos para a audiência.

Reflete, também tu, acerca da melhor forma de dizer aquele «ninguém». Fundamenta a tua opinião na interpretação desse momento da peça. (que repito em baixo).

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[...]

JORGE — Homem, acabai!

ROMEIRO — Agora acabo; sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: «Ide a D. Madalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis... aqui está vivo... por seu mal... e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas, de há vinte anos que o trouxeram cativo».

MADALENA (na maior ansiedade) — Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem, esse homem... Jesus! esse homem era... esse homem tinha sido... levaram-no aí de donde?... de África?

ROMEIRO — Levaram.

MADALENA — Cativo?

ROMEIRO — Sim.

MADALENA — Português!... cativo da batalha de?...

ROMEIRO — De Alcácer-Quibir.

MADALENA (espavorida) — Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo de meus pés... Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?...

JORGE — Calai-vos, D. Madalena! A misericórdia de Deus é infinita. Esperai. Eu duvido, eu não creio... estas não são cousas para se crerem de leve. (Reflete, e logo como por uma ideia que lhe acudiu de repente.) Oh! inspiração divina... (chegando ao romeiro). Conheceis bem esse homem, romeiro, não é assim?

ROMEIRO — Como a mim mesmo.

JORGE — Se o víreis... ainda que fora noutros trajos... com menos anos, pintado, digamos, conhecê-lo-eis?

ROMEIRO — Como se me visse a mim mesmo num espelho.

JORGE — Procurai nesses retratos, e dizei-me se algum deles pode ser.

ROMEIRO (sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João) — É aquele.

MADALENA (com um grito espantoso) — Minha filha, minha filha, minha filha!... (Em tom cavo e profundo.) Estou... estás... perdidas, desonradas... infames! (Com outro grito do coração.) Oh! minha filha, minha filha!... (Foge espavorida e neste gritar.)

CENA XV

JORGE e o ROMEIRO, que seguiu Madalena com os olhos, e está alçado no meio da casa, com aspeto severo e tremendo

JORGE — Romeiro, romeiro, quem és tu?

ROMEIRO (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal) — Ninguém! (Frei Jorge cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente.)

A encenação de Jorge Listopad (ato II): https://arquivos.rtp.pt/conteudos/frei-luis-de-sousa-parte-ii/

As representações de que vimos a parte correspondente ao final do Ato II de Frei Luís Sousa, de Almeida Garrett, foram:

Filme / Peça

Ano

Realizador / Encenador / Grupo

Frei Luís de Sousa

1950

António Lopes Ribeiro

Frei Luís de Sousa

1958

Edgar Marques («Noite de teatro» da Emissora Nacional)

Frei Luís de Sousa

1967

Jorge Listopad

Quem és tu?

2001

João Botelho

Madalena

2013

Jorge Pinto

Frei Luís de Sousa

2019

Miguel Loureiro

O exame de 2020, fase especial, tinha este item 7 em torno de Frei Luís de Sousa:

Grupo I — Parte C

7. Em Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, são vários os aspetos que conferem uma dimensão trágica à obra, nomeadamente a mudança do espaço onde vai decorrendo a ação.

Escreva uma breve exposição na qual comprove esta afirmação, baseando-se na sua experiência de leitura da peça.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual refira duas alterações significativas observáveis no espaço em que decorre a ação e explique o modo como essas alterações contribuem para a dimensão trágica da obra;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

[Dos Critérios de Correção:

Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes:

— a passagem do palácio de Manuel de Sousa Coutinho, aberto ao exterior/luminoso/luxuoso, para o palácio de D. João de Portugal, opressivo/austero/melancólico e ligado ao passado de Madalena, simbolizando a destruição da felicidade familiar (ainda que aparente) e a aproximação do destino fatal;

— o progressivo fechamento do espaço, patente, por exemplo, na passagem da sala dos retratos do palácio de D. João de Portugal para a parte baixa desse mesmo palácio e, posteriormente, para a capela, simbolizando o aprisionamento das personagens, cujo destino as conduz inexoravelmente à entrada na vida religiosa;

— a alteração dos adereços, evidente, por exemplo, na introdução de elementos como o caixão e as cruzes/o hábito de religioso domínico, simbolizando a morte/a penitência, por oposição aos objetos que, inicialmente, revelavam o luxo e a elegância do palácio de D. Manuel (porcelanas, sedas, flores, livros, tapeçarias...).]

TPC — Na Classroom a que vais ser chamado, passa a limpo (apenas com as minhas alterações) o texto sobre «Ética no desporto».

 


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