Filmes para Olimpíadas da Cultura Clássica (2024)
Afonso,
Gonçalo, Joana B., Ranya (11.º 4.ª)
Céfalo
e Prócris — O amor condenado
Tema Céfalo e Prócris Classificação Muito Bom Comentário O formato escolhido, o de trailer, é dos mais complexos. É um género que costuma recorrer a não poucos requintes técnicos. Compreende-se: as produtoras, nesses poucos minutos, têm de concentrar esforços para seduzir os espetadores (num trailer dá-se, ainda que num espaço ínfimo, o que o filme de mais espetacular possa ter e o que da intriga seja mais apelativo). Por isso, muitas das tentativas de conceber um trailer não conseguem esconder a natural exiguidade de meios. Ora, um dos elogios que se podem fazer ao trabalho de Afonso, Gonçalo, Joana e Ranya é que o seu trailer parece mesmo um trailer, não nos fica a sensação de estarmos perante arremedo amador a imitar os profissionais. E isto que acabei de dizer não é pouco, porque inclui a escrita do argumento (a seleção das cenas e dos diálogos suscetíveis de indiciar a história e a tornar apetecível sem a desvendar demasiado), a técnica videográfica (recursos de filmagem e de montagem, sem esquecer a importância do som) e até a arte teatral, em que os quatro autores/atores revelam apreciável competência (tanto mais que se equilibra entre a necessidade de se atuar com naturalidade e o distanciamento irónico relativamente ao que se está a representar). Tudo isto teve, decerto, de ser recheado com muito trabalho, muita planificação. (*«Que pena que estavas grávida!» não é gramatical, seria «Que pena estares grávida!» ou «Que pena que estivesses grávida!»; e *«Não acredito que fizeste isto» deveria ser «Não acredito que tenhas feito isto» ou «Não acredito que fizesses isto» — mas, é claro, podemos respaldar-nos no facto de se pretender realismo e assumirmos que as personagens, ainda que mitológicas, não usam o conjuntivo por este modo verbal já nos parecer pouco verdadeiro, quase apenas literário. E há uma gralha no separador em que se lê «*inco[n]fidência».)
Alice
& Inês (11.º 1.ª)
A
misteriosa caixa numa história de amor
Tema Pandora Classificação Muito Bom (-) Comentário Boa leitura em voz alta, de ambas as vozes em off (Alice, primeiro; depois, Inês), quer quanto a velocidade e entoação, quer quanto a clareza e rigor na pronúncia das palavras. Na verdade, não há diálogo em direto, o que, reconheça-se, torneia dificuldades na planificação (ter-se-ia de criar cenas que condensassem a ação); há, porém, momentos, concebidos engenhosamente, em que o som «da ação» corta o da narração, os do trovão e da música celestial no final. Adota-se, assim, um esquema de narrativa que não é o típico do cinema: representa-se, «em mudo», com a conveniente estilização, um pouco caricatural, das ações (no cinema mudo, já se sabe, os atores têm de exacerbar as emoções para as tornar percetíveis) e certos recursos metafóricos (por exemplo, o tacho com os recortes de papel com as qualidades — em «perícia», e bem, figura o acento agudo, ainda que bastante curto). O final remedeia o pessimismo do mito, criando uma solução benfazeja. Houve muito cuidado em todos os aspetos que envolvem um trabalho destes. (Não se deve dizer «Foi chamada de Pandora» mas, como já expliquei em aula tantas vezes, «Foi chamada Pandora».)
Ana,
Helena, Joana (11.º 3.ª)
Céfalo
e Prócris no «Alta Definição»
Tema Céfalo e Prócris Classificação Muito Bom-/Bom+ Comentário Vários elementos textuais com humor inteligente (em geral, aproveitando a deslocação de uma narrativa clássica de mitologia para um contexto de século XXI e em entrevista cor de rosa, jogando-se com as incongruências, sobretudo linguísticas, que os contextos diferentes podem gerar): «com a sua ex»; «ambos termos relações anteriores»; «ah, pois: eu matei a minha mulher»; «ora veja, Daniel»; «tendo em conta que ele me matou»; «fui eu que lhe dei um cão e uma flecha». Creio que esta estratégia podia ser ainda mais desenvolvida (a última, e mais longa, fala de Céfalo-Helena podia assentar num texto com mais destes aproveitamentos da situação insólita que cruza género televisivo que se pretende realista e episódio mitológico obviamente inverosímil). Réplica final foi muito bem criada: «E o que dizem os seus olhos?/ Que devia ter casado com um pescador». Também se consegue imitar os tiques do formato televisivo, modicamente, em termos de recursos gráficos/sonoros. (No final, num dos slides com dizeres, a conjunção copulativa que liga nomes de autoras, Ana, Helena, Joana, não teria de estar em letra maiúscula. No slide inicial, a seguir aos dois pontos, convinha também ficar letra minúscula.)
Bea,
Clara, Leonor, Matilde Ch. (11.º 1.ª)
Jogos
dos deuses — o baralho mitológico
Tema Céfalo e Prócris Classificação Bom+/Bom(+) Comentário Um jogo é o pretexto inicial para se abordar o mito de Céfalo e Prócris. A primeira pergunta tem a solução «Aurora» («Quem raptou Céfalo?»). Segue-se a leitura, em off, das peripécias do mito e, ao mesmo tempo, aqui e ali, a alusão, em representação estilizada, a alguns desses momentos. A estratégia foi bem imaginada; o texto não está mal escrito (embora próximo dos textos informativos correntes) e, em geral, foi bem lido; a representação é boa (quer a das jogadoras quer a das réplicas de momentos do mito); a técnica de filmagem e de montagem também é competente. Porém, o formato/pretexto que adotaram Bea, Clara, Leonor e Matilde talvez pudesse ser mais aproveitado, até em termos de duração: interromper-se-ia mais o relato, com diálogos com comentários à narrativa, prolongando-se um pouco o filme até ao desenlace da história. Esses comentários poderiam gerar — como de resto foi feito no final — dúvidas, questionamentos, que implicariam depois juízos sobre a intriga clássica. Em «a dizer que ele invocava uma brisa *cuja Prócris pensava que se tratava de uma ninfa» (cerca de 1.20), «cuja» não está bem (seria «que» que deveríamos usar: «invocava uma brisa que Prócris pensava que se tratava de uma ninfa»). E, cerca de 0.49, há palavra que não percebo mas não me parece correta: «mas Prócris jamais o [?]».
Bia,
Cristian, Neves (11.º 1.ª)
Trair
e Perdoar — O Mito
Tema Céfalo e Prócris Classificação Muito Bom/Muito Bom(-) Comentário Bia, Cristian e Neves transpuseram para a atualidade e para um contexto escolar as peripécias de Prócris e Céfalo. A imbricada história original — recheada de quiproquós, enlaces e desenlaces — tem aqui os seus correlatos sempre cumpridos — o que não era fácil, dado até o tempo máximo permitido (três minutos) —, mas com um fecho diferente, mais otimista. Os recursos técnicos (aceleração nas partes que ligam as cenas, bigode a sobrepor-se à imagem-base, balões ou smiles a anteciparem um núcleo da ação e a presença de maravilhoso) caem bem, funcionam como quase-separadores, agilizam o vídeo, assinalam a perspetiva exterior irónica de quem nos diz ‘olhem que tudo isto é uma brincadeira’. Todo o ritmo do filme resulta da boa ideação de ficção e escrita sintética dos diálogos (a representação é eficiente, sem lapsos, embora, como é natural, muito estilizada, mais de «cartoon» do que de novela que se pretendesse muito verosímil). No final há uma contrapartida um pouco desonesta para a redenção de Céfalo: promete ser para sempre leal a Prócris, mas, em troca, recebe a solução do teste de Matemática. Ou seja, o desenlace último não é trágico como o da mitologia mas revela-nos um Céfalo com laivos de interesseirismo (e uma Prócris que não deixa de se mostrar negociadora, embora agora já seja boa aluna a Matemática).
Constança
& Miguel (11.º 1.ª)
A
curiosidade matou o gato!
Tema Pandora Classificação Muito Bom/Muito Bom (-) Comentário Os nós da intriga do mito foram transferidos por Constança e Miguel para uma situação que visa explicar os males atuais e pode ser interpretada por personagens contemporâneas. Graças à montagem bem planeada e à redação inteligente das várias cenas, breves e incisivas, o filme pôde incluir um momento de introdução (exibição dos males), outro de desenvolvimento (que implicita um regresso ao passado para explicar o surgimento dos males), uma conclusão (castigo) e até um epílogo (o gato). Há um importante mérito que é um requisito do cinema: trata-se de arte em que é obrigatório planificar para contar um enredo de forma adequada, sempre mais fragmentária do que a narrativa escrita. (Note-se, finalmente, que um pai, mesmo que se chame Zeus, se der descomposturas a rir, não será respeitado pelos filhos.)
João
& Santiago (11.º 4.ª)
Pandora,
Diesel, Zeus e o Glorioso
Tema Pandora Classificação Muito Bom - Comentário Paródia dos próprios diretos (creio que do YouTube), ainda na primeira parte, com os dois benfiquistas, com boa sensibilidade aos usos linguísticos habituais nos youtubers. Montagem, com breves slides separadores musicados, simula bem a passagem do tempo e dá coerência à narrativa. De qualquer modo, em termos de construção narrativa, o expediente mais importante do filme de João e Santiago é o encaixe de uma narrativa de 2.º nível, um vídeo que uns dos inscritos do canal, moradores na Malveira, teriam enviado e é transmitido a pedido. Esse trabalho é que aproveita o episódio mitológico. Como o «vídeo clássico-malveirense» está encaixado, pode ser comentado pelos coordenadores youtubers, o que é outra vantagem, sobretudo enquanto recurso humorístico (a estranheza perante a caixa, primeiro; depois, o diálogo final a tentar explicar o que se passara, que, quanto a mim, é um pouco desaproveitado — poderíamos imaginar reações mais absurdas, tentando interpretações mais inesperadas dos elementos originais do mito). Bem pensadas também as caracterizações de Zeus e de Pandora — com alguma coisa de asterixiana — e das restantes personagens (as contemporâneas).
Mariana
& Marta (11.º 3.ª)
Amor
perdido — Céfalo no mato e Sassá na pista de dança
Tema Céfalo e Prócris Classificação Muito Bom-/Bom+ Comentário Mariana e Marta transpuseram para um contexto de pequenas intrigas de namoricos contemporâneas as peripécias da mitologia que envolvem Prócris e Céfalo. Com efeito, o ciúme, a traição, são intemporais: onde havia rio e caça pode ficar agora noite e Urban; maledicências de Aurora podem dar lugar a mensagens de telemóvel. O novo registo linguístico é bem recriado, imitado com sensibilidade linguística. Esta parte inicial do filme podia talvez prolongar-se um pouco mais (a própria reflexão que constitui a segunda parte, já um outro tipo de texto, ganhava em não surgir tão cedo, reforçando-se o teor conclusivo-pedagógico que tem). Título inventado com originalidade resulta bem, é chamativo. (Não seria «fez com que o valor dos pratos dos teus defeitos disparassem» mas «disparasse»: sujeito é «o valor dos pratos dos teus defeitos», que é singular. Também em «o emaranhado de relva e de terra batida não me aconchegam» o verbo ficaria no singular, «aconchega», já que de novo temos o sujeito no singular: «O emaranhado [...]».)
Matilde
S. (11.º 1.ª)
A
caixa dos nossos defeitos
Tema Pandora Classificação Muito Bom (-) Comentário Sem deixar de aproveitar o mito da caixa de Pandora (de que, uma vez aberta por indevida curiosidade, se libertariam os males do mundo), Matilde conseguiu tratar o tópico e não ficar presa aos enredos complicativos dos episódios da mitologia. Como foi bem concebida a estrutura do filme (ancorada na divisão por três «defeitos», que vão surgindo «batidos à máquina, aliás em estilo gráfico elegante), há síntese e ritmo, apesar da leitura calma, e, ao mesmo tempo, profundidade (mais implícita do que discursiva) na abordagem. Uma dúvida minha: «Mas não é inevitável» (1.23) não seria «Mas não é evitável» («não é evitável [ter ciúmes]»)? Ou a interpretação correta é ‘não é inevitável que não deva acontecer’?
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