Thursday, August 23, 2018

Os Maias 18


João Pedro & Sebastião (11.º 2.ª)
Sebastião & João Pedro (Muito Bom/Muito Bom (-)) Pontos fortes Sentido narrativo como exige o cinema (ação é dada em poucos takes, escolhidos cirurgicamente). História, bem criada, consegue associar o que sabemos no cap. XVIII com dados inventados mas relativamente verosímeis; e a intriga é conduzida de modo a permitir a contemplar uma vertente de roteiro; final, com saída em elétrico, alude ao americano com que fecha o livro. Muito boa representação. Muito bom acabamento técnico. Aspetos melhoráveis «*Não tenho-a aqui» (seria «Não a tenho aqui», porque a negação implica que o pronome tem de ficar em próclise; mas podemos dizer que na vida real, na oralidade, fazemos estes erros). A «Rosières», na carta, falta o «s»; a pronúncia de termos franceses nem sempre é perfeita; nos créditos, «prazer» tem gralha. 


Ivânia (11.º 9.ª)
Ivânia (Bom (+)) Pontos fortes Redação muito boa, ainda que com, aqui e ali, alguns lugares comuns (a preocupação de tudo adjetivar...). Leitura em voz alta também muito bem em termos «sintáticos», mas nem sempre de «fonética» tão clara quanto a Ivânia conseguiria fazer (nem tanto por velocidade, mas mais pela nossa maneira lisboeta de falar, comem-se sons, certas sílabas são ditas com pouca nitidez). Há eficiência na simplicidade da solução adotada (imagens de Lisboa, texto de Carlos, música de fundo triste, tudo agregado de modo que revela domínio técnico), que, no entanto, me parece iludir as características do capítulo XVIII, o qual não trata propriamente da desilusão amorosa, antes da frustração duma vida, aliás de uma geração (a própria Lisboa que vemos nas imagens, a Lisboa turística desta nossa última década, não conota o discurso de reconhecimento da decadência predominante no final do livro). Imagem com que o filme fecha muito bem escolhida. Aspetos melhoráveis Certo desaproveitamento da índole do final de Os Maias (que aflorei em cima). A corrigir: «*sob a rua de São Francisco paira uma nuvem» (seria: «sobre a rua de São Francisco paira uma nuvem»).

Eduardo, Francisco & Miguel (11.º 3.ª)

Miguel, Eduardo, Francisco (Bom+/Muito Bom-) Pontos fortes Filme criado é, por um lado, uma exata metáfora do cap. 18 de Os Maias (os amigos regressam a um espaço que conheceram, aproveitam para recordar o seu passado, vão subindo Lisboa ou a ESJGF, notando que tudo continua afinal igual); por outro lado, o trabalho tem também bastante de antítese face ao final do livro de Eça, já que, se nas últimas páginas de Os Maias havia frustração, a perceção de que tudo falhara, pessimismo e ressentimento relativamente a um país, no filme de agora (aliás, de daqui a anos...), temos nostalgia, saudade, recordação de tempos passados que são olhados com simpatia, mesmo que com ironia também. Este trabalho fecha muito bem o conjunto de trabalhos sobre Os Maias, porque é generoso, é um testemunho de amigos feito com amizade pela escola que frequentaram (e «escola» agrega, é claro, muita gente). Aspetos melhoráveis Som do minuto e meio final, por causa do vento, creio (no resto, revelam muito saber técnico). Representação (a de Eduardo é tão má que até faz que Francisco e Miguel pareçam atores razoáveis) — problema, porém, é outro: é que o texto está excessivamente bem escrito, de um modo que não é representável (as falas são de um português que não é o português falado, logo tornam a dramatização dificílima; teriam de ter escrito «pior», imitando mais o verdadeiro português oral). No final, podiam ter aproveitado o «Ainda o apanhamos!» (não em demanda do «americano» do livro, mas, por exemplo, de um tuc-tuc, o da promoção do Auchan em frente ao Califa em que alguns de vocês ainda se transportaram).

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